Deus também fica em silêncio - 12 Luas Cheias
Nota de abertura
Deus também fica em silêncio - 12 Luas Cheias
É uma
única narrativa, contada em 12 partes,
ao longo de um ano.
Não porque falte o que dizer, mas porque certas verdades só se revelam quando
não são forçadas.
Como funciona
- 1 parte por mês
- Publicação: todo dia 7
- Durante 12 meses
- 2026
Leia no
seu ritmo. Tempo médio de leitura: 9 a
11 minutos,
Volte quando a lua voltar.
As Luas
🌕 1° Lua — 07 de janeiro de 2026 (publicado)
• 🌕 2° Lua — 07 de fevereiro de 2026 (publicado)• 🌕 3° Lua — 07 de março de 2026
• 🌕 4° Lua — 07 de abril de 2026
• 🌕 5° Lua — 07 de maio de 2026
• 🌕 6° Lua — 07 de junho de 2026
• 🌕 7° Lua — 07 de julho de 2026
• 🌕 8° Lua — 07 de agosto de 2026
• 🌕 9° Lua — 07 de setembro de 2026
• 🌕 10° Lua — 07 de outubro de 2026
• 🌕 11° Lua — 07 de novembro de 2026
• 🌕 12° Lua — 07 de dezembro de 2026
Deus também fica em silêncio
1° Lua
— Ele vem? — perguntou o pai, já
deixando transparecer o aborrecimento com o rumo que a situação tomava. O misto
de preocupação e nervos estava à flor da pele.
— Não sei. — a mãe
respondeu quase num sussurro, enquanto pousava os pratos na mesa.
— Nunca sabes! — o pai
replicou, batendo levemente na mesa. Uma taça deslizou e caiu sem partir.
A mãe olhou-o em
silêncio. Demorou alguns segundos antes de falar.
— Você é um perdedor,
você. — disse, e afastou-se logo depois de colocar o último talher sobre a
mesa.
Ele, ainda
insatisfeito, seguiu-a até à cozinha. Aproximou-se enquanto ela permanecia de
costas, organizando o que restava para servir o jantar.
— Você sempre foge
quando o assunto é o mau comportamento do teu filho querido. É você que
alimenta isso nele.
— O que você quer Zé?
Eu não quero discutir. Vamos jantar e acabou. — respondeu, já com a voz mais
alta.
— É isso que você
sempre faz. Guarda a sujeira debaixo do tapete.
— Que sujeira qual quê?
— O comportamento do
teu filho querido.
— Ele também é teu
filho. Então qualquer mau comportamento, a culpa também é tua.
— Minha culpa?
Ela virou-se de costas.
— Me deixa em paz.
Ele percebeu que já não
discutiam sobre o filho. Discutiam sobre tudo o que nunca souberam dizer quando
ainda havia tempo. E isso, de alguma forma, doía mais.
Ela tentou passar por
ele para voltar à sala. Ele estendeu o braço, bloqueando-lhe a passagem. Por um
segundo, nenhum dos dois se mexeu. No
movimento seguinte, a tigela cheia de funge escorregou e caiu no chão,
espalhando tudo.
— É isso que você
queria? — ele disse. — É isso que você queria?
— O que eu queria era
que nós fôssemos uma família de verdade. E não três pessoas a viver na mesma
casa.
— Mas a culpa é tua. Eu
fiz tudo. Eu dei tudo o que uma mãe podia dar a um filho. Tudo. — disse,
encarando-o. — Mas e você?
O pano amarrado à
cintura dela soltou-se. O vestido sujo de fuba ficou exposto.
— E você acha que sair
de madrugada e voltar ao anoitecer para pôr comida nesta casa, de janeiro a
dezembro, não é dar no duro? Achas mesmo? — ele respondeu, exaltado. — Eu podia
desperdiçar a minha vida na rua, mas sempre voltei para vocês. Sempre. E sempre
saí para trabalhar, até nos meus piores dias.
— E esperas o quê, Zé?
Aplausos? — ela apanhou o pano do chão e começou a bater palmas, carregando
toda a ironia que lhe restava. — Foste trabalhar e sustentaste a tua família.
Isso é o mínimo que se espera das responsabilidades de um homem. Queres um
prémio por isso?
Ele virou-se de costas
e passou as mãos pelo rosto, tentando conter o que já transbordava nos gestos.
— Um prémio? É isso?
Virou-se de repente e
gritou:
— Eu queria respeito.
Amor. — apontou em redor da cozinha. — Tudo o que fiz nesta casa foi por amor.
Não precisei que me pagassem por isso. Faria tudo outra vez.
Sentou-se no banquinho
mais próximo. A voz baixou, mas não perdeu peso.
— Mas não sei onde
errei como pai… Tudo o que tentei foi ser um pai como o que tive.
Fez uma pausa.
— Agora olha para nós.
Olha para mim, Teté… Vinte e seis anos depois, e ainda estamos aqui a discutir
sobre como eu devia ter sido um bom pai.
Ele manteve-se sentado,
o olhar perdido num ponto qualquer da cozinha.
— A culpa é minha. —
disse, quase para si. — Sempre foi.
Ela não respondeu de
imediato. Continuou a limpar o chão como se ainda houvesse algo para salvar do
funge espalhado.
— Fui eu que devia ter
visto antes. Fui eu que devia ter segurado aquilo quando começou a desandar. —
levantou os olhos. — Ele é meu filho. Se algo deu errado, começa em mim.
A mãe parou.
Endireitou-se devagar. Ficou de frente para ele.
— Não. — disse. — Não
começa só em ti.
Ele abriu a boca para
responder, mas ela continuou.
— Isso é mentira
confortável. A culpa toda num só corpo parece mais fácil de carregar. Mas não é
assim.
Ela respirou fundo.
— Como marido, tu foste
bom, o melhor. Sempre foste. — fez um gesto vago com a mão. — Nunca foi isso.
Mas como pai… errámos.
Os dois.
Ele franziu o rosto.
— Tu foste duro demais.
Eu fui branda demais. Nunca falámos a mesma língua com ele. — disse ela. — Cada
um puxou para um lado diferente, e chamámos isso de educação.
O silêncio voltou a
sentar-se entre eles.
— As expectativas nunca
bateram certo. — continuou. — Nem as nossas, nem as dele.
O que não dissemos quando devíamos dizer… virou hábito.
O que não fizemos quando ainda dava tempo… virou distância.
Ela baixou os olhos.
— Isso não é só culpa
tua. É nossa.
Ele levantou-se de
repente, a cadeira arrastando no chão.
— Mas eu sou o homem! —
gritou. — Era eu que devia resolver isso. Eu devia ter noção. Eu devia ter
segurado tudo antes de cair.
Passou as mãos pelo
rosto, outra vez.
— Um homem não devia
deixar o próprio filho perder-se assim.
Antes que ela
respondesse, um som cortou o ar.
Alguém batia a porta. A
mãe endireitou o corpo num sobressalto.
— Está aí. — disse num
fio de voz. — Ele chegou.
O pai não se moveu.
— Agora lhe diz. —
continuou ela, com os olhos fixos na porta. — Diz tudo o que disseste aqui.
Ele deu um passo,
depois parou.
Bateram a porta outra
vez.
Ela foi até à porta.
Quando abriu, não era
ele. Era a namorada dele.
Ela entrou apressada, os olhos varrendo a sala antes mesmo de dizer qualquer
coisa.
— Ele já chegou, mamã? — perguntou, ainda ofegante.
A mãe demorou um segundo a responder.
— Não… — disse. — Achámos que meu filho vinha contigo.
A namorada franziu o rosto, confusa.
— Comigo? Eu pensei que ele estivesse aqui. — olhou para o pai. — Ele disse
que vinha para casa.
O pai não respondeu de imediato. Limitou-se a abanar a cabeça, quase
imperceptível.
— Não veio. — disse por fim. — Desde ontem.
O silêncio caiu pesado, como se alguém tivesse fechado uma janela invisível.
— Então… — ela começou, mas não terminou a frase.
Deu um passo em frente e parou. Levou a mão à cabeça por um instante, depois
desceu até à barriga, num gesto quase involuntário. O corpo cedeu ligeiramente.
A mãe foi rápida.
— Senta. — disse, segurando-lhe o braço. — Senta, por favor.
Ajudou-a até à cadeira. A namorada deixou-se ficar, respirando fundo, a mão
ainda pousada sobre a barriga, agora sem tentar esconder.
A mãe olhou para aquilo e entendeu antes de perguntar.
— Há quanto tempo? — disse, num tom mais baixo do que vinha usando a noite
inteira.
Um silêncio se extendeu por alguns segundos até que a namorada finalmente
respondeu a dona Teté.
— Pouco. — respondeu ela. — Eu ainda nem…
Calou-se.
A mãe puxou outra cadeira e sentou-se à frente dela.
— Ele sabe? — perguntou.
A namorada abanou a cabeça.
— Não. Ia contar hoje.
Ninguém disse mais nada. Ficaram os três ali, de
pé e sentados ao mesmo tempo, cada um num ponto diferente da mesma preocupação.
O relógio da sala marcava o tempo com um som seco, regular, quase indecente.
Ele não estava ali. E ninguém sabia exatamente
onde estava. Tio Zé olhou para ela ali sentada, a mão sobre a barriga, e sentiu
algo que não soube nomear de imediato. Não era raiva. Não era culpa apenas. Era
a percepção tardia de que o futuro não espera que os homens estejam prontos. Pensou
no seu filho como pai pela primeira vez. Não como problema. Não como falha. Mas
como continuidade. E isso o assustou mais do que tudo o que tinham discutido
naquela noite.
Ser pai, afinal, não termina quando o filho
cresce. Apenas muda de forma.
O erro não se apaga. Ele atravessa gerações.
Perguntou-se se o filho teria medo como ele
tivera.
Se estaria agora algures a tentar ser homem sem
saber exatamente como.
Como ele próprio fizera, anos antes. Repetindo gestos que achava certos apenas
porque não conhecia outros.
O futuro, percebeu ali, não estava na barriga daquela
rapariga. Estava naquilo que ninguém lhes ensinara a dizer a tempo. E o medo
não era perdê-lo. Era vê-lo repetir tudo.
A mãe estendeu a mão e ajeitou o pano sobre a mesa, como se ainda houvesse
jantar a servir.
— Ele deve aparecer. — disse, sem convicção. — Sempre aparece quando a
comida já esfriou. — disse o tio Zé.
Ninguém respondeu. Ele olhou para o relógio e percebeu que aquela noite já
durava mais do que devia. Pensou que tudo aquilo estava a acontecer rápido
demais. O filho saíra de casa no dia anterior, e já parecia distante como
alguém que partira há anos.
Entendeu ali que o tempo não avisa quando vai quebrar uma família. Apenas
passa. E quando se percebe, já levou alguém junto. A mãe continuava a dobrar e
desdobr a tolha de mesa.
A batida na porta não foi forte. Despertou-lhes logo. Três toques curtos. O
pai levantou-se primeiro. Não por pressa, mas por instinto. Antes que chegasse
à porta, suspirou.
Era um homem que nenhum deles conhecia bem. Rosto comum. Roupa comum.
— Boa noite. — disse. — Desculpem incomodar a esta hora.
O pai assentiu com a cabeça.
— Estamos à procura de um rapaz. — continuou o homem, olhando rapidamente
para os três, como quem confirma se está no sítio certo. — Disseram-nos que ele
mora aqui.
A mãe sentiu o corpo enrijecer.
— O nosso filho? — perguntou. — Ele não está em casa desde ontem.
O homem confirmou com um leve movimento de cabeça.
— Ele está bem? Fez alguma coisa?
— Sim, senhor!
— Sim o quê, caraças!
Houve uma pausa curta demais para ser confortável.
O homem ia responder quando uma voz surgiu do lado de fora.
— Não é aqui. — disse alguém. — É na outra casa.
Todos se viraram ao mesmo tempo.
Era um segundo homem, mais novo, apontando para a casa ao lado.
— Já confirmámos. — continuou. — A ocorrência é com o rapaz dali.
O pai sentiu o ar voltar aos pulmões num impulso brusco.
— Então… — disse devagar. — Então não é o meu filho.
O primeiro homem confirmou.
— Não. — disse. — Estamos à procura do Sérgio. — disse o nome, e o pai
reconheceu-o de imediato. O amigo do filho. O vizinho. Desde criança.
O alívio veio rápido demais para ser limpo. Veio sujo. Misturado com outra
coisa
— Não é ele que estamos a procurar. — acrescentou. — Mas estavam juntos.
O pai sentiu o chão perder alguma firmeza.
— Juntos onde? — perguntou.
— Ontem à noite. — respondeu o homem. — Depois disso, ninguém mais os viu.
O silêncio voltou a ocupar a sala.
— Se tiverem qualquer informação… — começou o homem, mas não terminou a
frase.
Não precisava.
— Avisem-nos. — concluiu, por fim.
Ele deu um passo atrás, esperando alguma reação que não veio.
— Boa noite. — disse outra vez.
A porta permaneceu aberta, nenhum dos três se mexeu. A casa parecia maior. E
perigosamente vazia. O pai fechou os olhos por um instante.
A mãe manteve-se de pé. Não sentou. Não caiu. Apenas respirou fundo, como
quem se recusa a ceder naquele momento.
Pensou no filho pequeno, a brincar naquela mesma rua. Pensou em quantas
vezes o chamara para dentro, e quantas vezes deixara passar. Pensou em como
nunca se sabe exatamente o momento em que a vigilância vira confiança ou
abandono.
O perigo não era ter feito algo errado. Era não saber onde ele estava agora.
A namorada mexeu-se na cadeira e comentou.
— Depois de ir ter comigo, eles estavam juntos ontem. — disse, num fio de
voz. — Mas depois se separaram. Ele disse que vinha para casa.
— Disse a que horas? — perguntou a mãe, aproximando-se.
— Não. — respondeu ela. — Só disse que vinha.
— Então ninguém sabe onde está o meu filho. — disse o pai, mais como
constatação do que pergunta.
Ficaram os três ali, ligados pela mesma ausência,
tentando montar uma história com peças que não encaixavam. O filho não estava
em casa. Não estava a ser procurado.
Mas também não estava seguro. E isso era pior do que qualquer acusação.
O pai foi até à porta e ficou ali, olhando para a
rua vazia. Não era o filho que procuravam. Inspirou fundo, como quem tenta
organizar o que ainda não aconteceu. Percebeu que, pela primeira vez, não tinha
plano algum. Nem como homem. Nem como pai. E o medo, ali, já não era perdê-lo. Era
encontrá-lo tarde demais.
A mãe levantou-se em silêncio. Pegou na bolsa,
conferiu o telemóvel e calçou os sapatos.
— Onde vais? — perguntou o pai.
Ela não respondeu de imediato.
— Nós ficamos à espera quando já não sabe o que fazer. — disse. — Eu ainda
sei andar, então vou fazer alguma coisa.
Saiu de casa em passo
lento e firme.
A namorada permaneceu
sentada, respirando com dificuldade. S
O pai ficou onde
estava, entre a porta, divido entre o luar e a lampada acesa na sala sem saber ainda se iria atrás do filho ou atrás do
tempo que já não voltava.
- Continua...
🌕 2° Lua — 07 de fevereiro de 2026
O pai ficou parado à
porta por alguns segundos depois que a mãe saiu. Ouvindo os seus passos afastarem-se. O som
diminuiu até desaparecer, como tudo naquela casa fazia ultimamente. Fechou a
porta devagar. A casa voltou a ser só dele, da luz acesa na sala e do silêncio
da nora.
Olhou em volta como se
estivesse ali pela primeira vez. Os móveis estavam nos mesmos lugares. A mesa
ainda posta, a toalha mal dobrada, a cadeira do filho e da mulher vazias. Tudo
parecia intacto demais para uma noite que já tinha quebrado tantas emoções. Voltou
a sentar.
Era o mesmo silêncio
que preenchia os jantares quando o filho se levantava antes de terminar. O
mesmo que ficava depois de uma discussão interrompida. O mesmo que ele sempre
confundira com paz. Passou a mão pelo rosto outra vez. Estava cansado, aquele
cansaço que não melhora com sono, só com tempo, que agora, já não estava do seu
lado.
Levantou-se e foi até
ao quarto. Abriu a porta sem acender a luz. O quarto do filho estava como ele deixara.
A cama desfeita. Um par de ténis junto à parede. A mochila pendurada atrás da
porta. Nada fora levado às pressas. Nada indicava fuga. Só ausência.
Sentou-se na beira da
cama. Passou a mão pelo colchão amarrotado, tentando confirmar que aquilo ainda
era real. Pensou na primeira vez que o segurara nos braços. Pequeno. Frágil.
Tão dependente que chegava a doer.
— Eu cuidei de ti… —
disse em voz baixa, sem saber para quem.
Mas cuidar não era o mesmo que ensinar. E ensinar não era o mesmo que entender.
Lembrou-se do próprio
pai. Do jeito duro. Das ordens curtas. Da certeza de que homem não reclama,
aguenta. Ele aprendera aquilo cedo. E passara adiante sem questionar, como se
fosse lei natural.
— Foi assim que me
criaram… — murmurou. — E eu sobrevivi.
Mas sobreviver não era
o mesmo que viver bem. E talvez o erro estivesse aí.
A rua recebeu a mãe sem
cerimónia. A noite estava morna, mas havia qualquer coisa no ar que apertava o
peito.
Caminhou
primeiro sem destino, precisava que o corpo começasse antes da cabeça. O
pensamento vinha depois, sempre vinha.
Passou
pela casa da vizinha mais antiga do quarteirão. A que vira o filho crescer.
— Mana
Rosa? — chamou.
Nada.
Bateu
outra vez. A luz acendeu-se lá dentro, mas ninguém veio. Esperou alguns
segundos. Desistiu. Seguiu.
A rua
parecia maior àquela hora. As casas mais afastadas. As sombras mais longas.
Cada esquina escondia a possibilidade de uma resposta que ela não sabia se
queria ouvir.
Virou na
rua de baixo. Ali ele costumava parar quando voltava tarde. Um banco de
cimento, a parede marcada por arte de rua antiga. Aproximou-se devagar, como se
ele pudesse estar ali ainda, invisível, à espera.
Não
estava.
Encontrou
dois rapazes encostados à parede, a falar baixo. Parou a uma distância
respeitosa.
— Boa
noite. — disse. — Viram o meu filho passar por aqui?
Eles
trocaram olhares rápidos. Um encolheu os ombros.
— Qual
deles, mamã?
Ela
descreveu. Com palavras simples. Roupa. Altura. O jeito de andar.
— Acho
que sim… — disse o outro, sem convicção. — Mas foi tarde.
— Estava
sozinho?
— Não
sei.
O “não
sei” caiu pesado. Agradeceu com a cabeça e afastou-se. Não insistiu. Já
aprendera que respostas arrancadas à força vêm sempre tortas.
Continuou
a andar. Passou pelo pequeno bar que ficava aberto até tarde. A música saía
baixa, cansada. Entrou.
O homem
atrás do balcão levantou os olhos.
— Boa
noite.
— Boa
noite. — respondeu ela. — Ontem à noite… o meu filho esteve aqui?
O homem
pensou um pouco. Limpou o balcão sem necessidade.
— Vieram
alguns jovens. — disse. — Não reparei bem.
— Ele
costuma vir aqui.
—
Costumava. — corrigiu. — Já não o vejo há uns dias.
O verbo
no passado atingiu-a mais do que devia. Assentiu. Saiu antes que a voz lhe
falhasse.
À medida
que caminhava, a pressa inicial transformava-se num cansaço que vinha da repetição.
Perguntar. Ouvir pouco. Agradecer. Andar outra vez.
Pensou nas vezes em que o chamara para dentro. Pensou nas vezes em que não chamara. Em como, sem perceber, fora afrouxando a vigilância, convencida de que aquilo se chamava confiança.
Passou
pela igreja. A porta fechada. A luz apagada. Parou por um instante. Não entrou.
Não rezou. Não pediu nada. Olhou apenas em silêncio.
O
telemóvel vibrou no bolso. Um sobressalto breve. Tirou-o depressa.
Nada. Uma
notificação qualquer. Guardou-o. Sentiu o peso da bolsa no ombro. Os pés
começavam a doer. O corpo dava sinais que a cabeça ignorava. Continuou. Ainda
havia mais lugares. Mais nomes. Mais portas.
A mãe
chegou a um ponto da rua onde já não sabia bem o que procurava. As respostas
começavam a repetir-se, e quando a realidade começa a repetir-se, é sinal de
que algo está a esconder-se por baixo.
Parou
junto a uma casa baixa, portão azul, meio enferrujado. Ali morava uma mulher
que nunca falava muito, mas via tudo. Bateu palmas uma vez. Esperou. Bateu
outra.
A porta
abriu-se só o suficiente para um rosto aparecer.
— Boa
noite. — disse a mãe. — Desculpa a hora.
A mulher
avaliou-a rápido. O rosto cansado. A voz firme demais para a situação.
—
Aconteceu alguma coisa?
— O meu
filho não voltou para casa. — respondeu ela. — Disseram-me que ontem ele passou
por aqui.
A mulher
hesitou. Esse segundo de hesitação valeu mais do que qualquer palavra.
— Passou.
— disse por fim. — Não ficou muito tempo.
— Estava
sozinho?
A mulher
desviou o olhar.
— Não.
A mãe
sentiu o corpo reagir antes da cabeça.
— Com
quem?
— Com o
Sérgio… e mais dois. — respondeu. — Estavam nervosos. Não era conversa de gente tranquila.
—
Nervosos como?
A mulher
encolheu os ombros.
— Como
quem fez algo e ainda não sabe se deu certo.
O
silêncio instalou-se pesado entre as duas.
— Eles
discutiram? — perguntou a mãe.
— Não
aqui. — respondeu a mulher. — Aqui foi só pressa.
A mãe
agradeceu. Não perguntou mais. Percebeu que insistir não traria clareza, apenas
versões.
Em casa,
o pai voltou a ligar. Desta vez para um número que não queria usar. Um conhecido
distante. Um homem que sabia das coisas antes que se tornassem públicas.
— Fala. —
disse do outro lado, sem cumprimentos.
— Preciso
saber se ouviste algo. — respondeu o pai. — Sobre o meu filho. Ou o Sérgio.
Houve uma
pausa mais longa do que o normal.
— Ainda
não é assunto fechado. — disse o homem. — Mas ouvi rumores.
— Rumores
de quê?
— De
confusão. — respondeu. — Nada claro. Nada confirmado.
—
Confusão não cai do céu. — disse o pai, com a voz tensa.
— Nem
filhos se perdem sozinhos. — veio a resposta.
O pai
fechou os olhos.
— Ele
está envolvido em alguma coisa?
—
Envolvido é uma palavra grande. — disse o homem. — Digamos que tem estado muito
perto demais de quem não devia.
— Perto de quem?
A chamada terminou ali. E o
número já não chamava.
A
namorada foi até ao quarto dele, quando o pai já havia se retirado, não acendeu
a luz.
Sentou-se
na cama que ela já conhecia bem o conforto. O telemóvel estava ali, mudo,
pesado, cúmplice do silêncio. Passou a mão pela barriga ainda plana. Era medo
dividido com desorientação.
Não era
assim que ela imaginara contar. Não era assim que imaginara esperar. Não era assim
que imaginara estar grávida, sozinha, àquela hora, sem saber se o pai do filho
ainda cabia no verbo voltar.
Se ele
não voltar…parou. Respirou fundo. Se
alguma coisa lhe acontecer…
Sentiu um
aperto seco no peito. Não queria aquele futuro. Não sem ele. Não agora. A vida
tinha antecipado capítulos demais.
Na rua, a
mãe regressava. As pernas doíam, os pés arrastavam-se, e o cansaço tinha-se
instalado em seu coração, mas não havia choro, só lucidez amarga.
Eram
quase três da manhã. A casa apareceu ao fundo, com a luz da entrada acesa como
um aviso. O pai estava à porta. Imóvel. Esperando por ela. Não parecia aliviado
por vê-la voltar sozinha.
Quando finalmente ficaram próximos um do outro, não houve palavras, nem choros,
apenas um olhar de desespero profundo, por fim, ele abraçou fortemente. Beijou
sua testa e em seguida, dois sentaram-se na pequena escada de três degraus da
entrada da casa. Mesmo sendo já de madrugada, mas os permaneceram ali, sentados
e com a porta aberta atrás deles, e sem medo dos perigos noturnos.
O
telemóvel do senhor Zé vibrava.
Atendeu.
— Alô?
A voz do
outro lado não se apresentou.
Uma pausa
curta, calculada.
— Nem
tudo está perdido. — continuou. — Mas poderá estar.
O coração
da mãe bateu errado.
— As
coisas podem ficar piores — acrescentou a voz — se o que está guardadodentro da
vossa casa não for devolvido.
Silêncio.
— Para
qualquer dúvida… — concluiu — o Sérgio tem todas as respostas.
A chamada
caiu.
Ele ficou
parado por um segundo, como se o corpo precisasse de autorização para
continuar. Guardou o telemóvel e seguiu. O Sérgio era o amigo do filho que háalgumas
horas foi procurado sendo confundido como o filho e não estava em casa da mãe
dele que era logo junto a casa deles. Então só poderia estar em casa do pai
dele, que não era distante também.
Entraram no carro ainda com o motor frio arrancaram e
saíram disparados sem fechar a porta e sem despedir a namorada dentro de casa. Quase
quatro da manhã. Nenhuma explicação. Nenhuma garantia.
A casa do
Sérgio ficava perto demais para ser ignorada por tanto tempo. E assim que eles
chegaram, o pai do Sérgio abriu a porta logo no primeiro toque da campainha e
disse de imediato.
— Finalmente vocês chegaram, entrem logo!
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