quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Deus também fica em silêncio - 12 Luas Cheias (1° Lua)

 


Deus também fica em silêncio - 12 Luas Cheias

Nota de abertura

 Deus também fica em silêncio 12 Luas Cheias 

É uma única narrativa, contada em 12  partes, ao longo de um ano.
Não porque falte o que dizer, mas porque certas verdades só se revelam quando não são forçadas.

Como funciona

  • 1 parte por mês
  • Publicação: todo dia 7
  • Durante 12 meses
  • 2026

Leia no seu ritmo.  Tempo médio de leitura: 9 a 11 minutos,
Volte quando a lua voltar.

As Luas


🌕 1° Lua07 de janeiro de 2026 (publicado)

• 🌕 2° Lua07 de fevereiro de 2026
• 🌕 3° Lua07 de março de 2026
• 🌕 4° Lua07 de abril de 2026
• 🌕 5° Lua07 de maio de 2026
• 🌕 6° Lua07 de junho de 2026
• 🌕 7° Lua07 de julho de 2026
• 🌕 8° Lua07 de agosto de 2026
• 🌕 9° Lua07 de setembro de 2026
• 🌕 10° Lua07 de outubro de 2026
• 🌕 11° Lua07 de novembro de 2026
• 🌕 12° Lua07 de dezembro de 2026



Deus também fica em silêncio

 1° Lua


— Ele vem? — perguntou o pai, já deixando transparecer o aborrecimento com o rumo que a situação tomava. O misto de preocupação e nervos estava à flor da pele.

— Não sei. — a mãe respondeu quase num sussurro, enquanto pousava os pratos na mesa.

— Nunca sabes! — o pai replicou, batendo levemente na mesa. Uma taça deslizou e caiu sem partir.

A mãe olhou-o em silêncio. Demorou alguns segundos antes de falar.

— Você é um perdedor, você. — disse, e afastou-se logo depois de colocar o último talher sobre a mesa.

Ele, ainda insatisfeito, seguiu-a até à cozinha. Aproximou-se enquanto ela permanecia de costas, organizando o que restava para servir o jantar.

— Você sempre foge quando o assunto é o mau comportamento do teu filho querido. É você que alimenta isso nele.

— O que você quer Zé? Eu não quero discutir. Vamos jantar e acabou. — respondeu, já com a voz mais alta.

— É isso que você sempre faz. Guarda a sujeira debaixo do tapete.

— Que sujeira qual quê?

— O comportamento do teu filho querido.

— Ele também é teu filho. Então qualquer mau comportamento, a culpa também é tua.

— Minha culpa?

Ela virou-se de costas.

— Me deixa em paz.

Ele percebeu que já não discutiam sobre o filho. Discutiam sobre tudo o que nunca souberam dizer quando ainda havia tempo. E isso, de alguma forma, doía mais.

Ela tentou passar por ele para voltar à sala. Ele estendeu o braço, bloqueando-lhe a passagem. Por um segundo, nenhum dos dois se mexeu.  No movimento seguinte, a tigela cheia de funge escorregou e caiu no chão, espalhando tudo.

— É isso que você queria? — ele disse. — É isso que você queria?

— O que eu queria era que nós fôssemos uma família de verdade. E não três pessoas a viver na mesma casa.

— Mas a culpa é tua. Eu fiz tudo. Eu dei tudo o que uma mãe podia dar a um filho. Tudo. — disse, encarando-o. — Mas e você?

O pano amarrado à cintura dela soltou-se. O vestido sujo de fuba ficou exposto.

— E você acha que sair de madrugada e voltar ao anoitecer para pôr comida nesta casa, de janeiro a dezembro, não é dar no duro? Achas mesmo? — ele respondeu, exaltado. — Eu podia desperdiçar a minha vida na rua, mas sempre voltei para vocês. Sempre. E sempre saí para trabalhar, até nos meus piores dias.

— E esperas o quê, Zé? Aplausos? — ela apanhou o pano do chão e começou a bater palmas, carregando toda a ironia que lhe restava. — Foste trabalhar e sustentaste a tua família. Isso é o mínimo que se espera das responsabilidades de um homem. Queres um prémio por isso?

Ele virou-se de costas e passou as mãos pelo rosto, tentando conter o que já transbordava nos gestos.

— Um prémio? É isso?

Virou-se de repente e gritou:

— Eu queria respeito. Amor. — apontou em redor da cozinha. — Tudo o que fiz nesta casa foi por amor. Não precisei que me pagassem por isso. Faria tudo outra vez.

Sentou-se no banquinho mais próximo. A voz baixou, mas não perdeu peso.

— Mas não sei onde errei como pai… Tudo o que tentei foi ser um pai como o que tive.

Fez uma pausa.

— Agora olha para nós. Olha para mim, Teté… Vinte e seis anos depois, e ainda estamos aqui a discutir sobre como eu devia ter sido um bom pai.

Ele manteve-se sentado, o olhar perdido num ponto qualquer da cozinha.

— A culpa é minha. — disse, quase para si. — Sempre foi.

Ela não respondeu de imediato. Continuou a limpar o chão como se ainda houvesse algo para salvar do funge espalhado.

— Fui eu que devia ter visto antes. Fui eu que devia ter segurado aquilo quando começou a desandar. — levantou os olhos. — Ele é meu filho. Se algo deu errado, começa em mim.

A mãe parou. Endireitou-se devagar. Ficou de frente para ele.

— Não. — disse. — Não começa só em ti.

Ele abriu a boca para responder, mas ela continuou.

— Isso é mentira confortável. A culpa toda num só corpo parece mais fácil de carregar. Mas não é assim.

Ela respirou fundo.

— Como marido, tu foste bom, o melhor. Sempre foste. — fez um gesto vago com a mão. — Nunca foi isso.

Mas como pai… errámos. Os dois.

Ele franziu o rosto.

— Tu foste duro demais. Eu fui branda demais. Nunca falámos a mesma língua com ele. — disse ela. — Cada um puxou para um lado diferente, e chamámos isso de educação.

O silêncio voltou a sentar-se entre eles.


— As expectativas nunca bateram certo. — continuou. — Nem as nossas, nem as dele.
O que não dissemos quando devíamos dizer… virou hábito.
O que não fizemos quando ainda dava tempo… virou distância.

Ela baixou os olhos.

— Isso não é só culpa tua. É nossa.

Ele levantou-se de repente, a cadeira arrastando no chão.

— Mas eu sou o homem! — gritou. — Era eu que devia resolver isso. Eu devia ter noção. Eu devia ter segurado tudo antes de cair.

Passou as mãos pelo rosto, outra vez.

— Um homem não devia deixar o próprio filho perder-se assim.

Antes que ela respondesse, um som cortou o ar.

Alguém batia a porta. A mãe endireitou o corpo num sobressalto.

— Está aí. — disse num fio de voz. — Ele chegou.

O pai não se moveu.

— Agora lhe diz. — continuou ela, com os olhos fixos na porta. — Diz tudo o que disseste aqui.

Ele deu um passo, depois parou.

Bateram a porta outra vez.

Ela foi até à porta.

Quando abriu, não era ele. Era a namorada dele.

Ela entrou apressada, os olhos varrendo a sala antes mesmo de dizer qualquer coisa.

— Ele já chegou, mamã? — perguntou, ainda ofegante.

A mãe demorou um segundo a responder.

— Não… — disse. — Achámos que meu filho vinha contigo.

A namorada franziu o rosto, confusa.

— Comigo? Eu pensei que ele estivesse aqui. — olhou para o pai. — Ele disse que vinha para casa.

O pai não respondeu de imediato. Limitou-se a abanar a cabeça, quase imperceptível.

— Não veio. — disse por fim. — Desde ontem.

O silêncio caiu pesado, como se alguém tivesse fechado uma janela invisível.

— Então… — ela começou, mas não terminou a frase.

Deu um passo em frente e parou. Levou a mão à cabeça por um instante, depois desceu até à barriga, num gesto quase involuntário. O corpo cedeu ligeiramente.

A mãe foi rápida.

— Senta. — disse, segurando-lhe o braço. — Senta, por favor.

Ajudou-a até à cadeira. A namorada deixou-se ficar, respirando fundo, a mão ainda pousada sobre a barriga, agora sem tentar esconder.

A mãe olhou para aquilo e entendeu antes de perguntar.

— Há quanto tempo? — disse, num tom mais baixo do que vinha usando a noite inteira.

Um silêncio se extendeu por alguns segundos até que a namorada finalmente respondeu a dona Teté.

— Pouco. — respondeu ela. — Eu ainda nem…

Calou-se.

A mãe puxou outra cadeira e sentou-se à frente dela.

— Ele sabe? — perguntou.

A namorada abanou a cabeça.

— Não. Ia contar hoje.


Ninguém disse mais nada. Ficaram os três ali, de pé e sentados ao mesmo tempo, cada um num ponto diferente da mesma preocupação. O relógio da sala marcava o tempo com um som seco, regular, quase indecente.

Ele não estava ali. E ninguém sabia exatamente onde estava. Tio Zé olhou para ela ali sentada, a mão sobre a barriga, e sentiu algo que não soube nomear de imediato. Não era raiva. Não era culpa apenas. Era a percepção tardia de que o futuro não espera que os homens estejam prontos. Pensou no seu filho como pai pela primeira vez. Não como problema. Não como falha. Mas como continuidade. E isso o assustou mais do que tudo o que tinham discutido naquela noite.

Ser pai, afinal, não termina quando o filho cresce. Apenas muda de forma. 

O erro não se apaga. Ele atravessa gerações.

Perguntou-se se o filho teria medo como ele tivera. 

Se estaria agora algures a tentar ser homem sem saber exatamente como. 

Como ele próprio fizera, anos antes.  Repetindo gestos que achava certos apenas porque não conhecia outros.

O futuro, percebeu ali, não estava na barriga daquela rapariga. Estava naquilo que ninguém lhes ensinara a dizer a tempo. E o medo não era perdê-lo. Era vê-lo repetir tudo.

A mãe estendeu a mão e ajeitou o pano sobre a mesa, como se ainda houvesse jantar a servir.


— Ele deve aparecer. — disse, sem convicção. — Sempre aparece quando a comida já esfriou. — disse o tio Zé.

Ninguém respondeu. Ele olhou para o relógio e percebeu que aquela noite já durava mais do que devia. Pensou que tudo aquilo estava a acontecer rápido demais. O filho saíra de casa no dia anterior, e já parecia distante como alguém que partira há anos.

Entendeu ali que o tempo não avisa quando vai quebrar uma família. Apenas passa. E quando se percebe, já levou alguém junto. A mãe continuava a dobrar e desdobr a tolha de mesa.

A batida na porta não foi forte. Despertou-lhes logo. Três toques curtos. O pai levantou-se primeiro. Não por pressa, mas por instinto. Antes que chegasse à porta, suspirou.


Era um homem que nenhum deles conhecia bem. Rosto comum. Roupa comum.

— Boa noite. — disse. — Desculpem incomodar a esta hora.

O pai assentiu com a cabeça.

— Estamos à procura de um rapaz. — continuou o homem, olhando rapidamente para os três, como quem confirma se está no sítio certo. — Disseram-nos que ele mora aqui.

A mãe sentiu o corpo enrijecer.

— O nosso filho? — perguntou. — Ele não está em casa desde ontem.

O homem confirmou com um leve movimento de cabeça.

— Ele está bem? Fez alguma coisa?

— Sim, senhor!

— Sim o quê, caraças!

Houve uma pausa curta demais para ser confortável.

O homem ia responder quando uma voz surgiu do lado de fora.

— Não é aqui. — disse alguém. — É na outra casa.

Todos se viraram ao mesmo tempo.

Era um segundo homem, mais novo, apontando para a casa ao lado.

— Já confirmámos. — continuou. — A ocorrência é com o rapaz dali.

O pai sentiu o ar voltar aos pulmões num impulso brusco.

— Então… — disse devagar. — Então não é o meu filho.

O primeiro homem confirmou.

— Não. — disse. — Estamos à procura do Sérgio. — disse o nome, e o pai reconheceu-o de imediato. O amigo do filho. O vizinho. Desde criança.

O alívio veio rápido demais para ser limpo. Veio sujo. Misturado com outra coisa

— Não é ele que estamos a procurar. — acrescentou. — Mas estavam juntos.

O pai sentiu o chão perder alguma firmeza.

— Juntos onde? — perguntou.

— Ontem à noite. — respondeu o homem. — Depois disso, ninguém mais os viu.

O silêncio voltou a ocupar a sala.

— Se tiverem qualquer informação… — começou o homem, mas não terminou a frase.

Não precisava.

— Avisem-nos. — concluiu, por fim.

Ele deu um passo atrás, esperando alguma reação que não veio.

— Boa noite. — disse outra vez.

A porta permaneceu aberta, nenhum dos três se mexeu. A casa parecia maior. E perigosamente vazia. O pai fechou os olhos por um instante.

A mãe manteve-se de pé. Não sentou. Não caiu. Apenas respirou fundo, como quem se recusa a ceder naquele momento.

Pensou no filho pequeno, a brincar naquela mesma rua. Pensou em quantas vezes o chamara para dentro, e quantas vezes deixara passar. Pensou em como nunca se sabe exatamente o momento em que a vigilância vira confiança ou abandono.

O perigo não era ter feito algo errado. Era não saber onde ele estava agora.

A namorada mexeu-se na cadeira e comentou.

— Depois de ir ter comigo, eles estavam juntos ontem. — disse, num fio de voz. — Mas depois se separaram. Ele disse que vinha para casa.

— Disse a que horas? — perguntou a mãe, aproximando-se.

— Não. — respondeu ela. — Só disse que vinha.

— Então ninguém sabe onde está o meu filho. — disse o pai, mais como constatação do que pergunta.


Ficaram os três ali, ligados pela mesma ausência, tentando montar uma história com peças que não encaixavam. O filho não estava em casa. Não estava a ser procurado.
Mas também não estava seguro. E isso era pior do que qualquer acusação.


O pai foi até à porta e ficou ali, olhando para a rua vazia. Não era o filho que procuravam. Inspirou fundo, como quem tenta organizar o que ainda não aconteceu. Percebeu que, pela primeira vez, não tinha plano algum. Nem como homem. Nem como pai. E o medo, ali, já não era perdê-lo. Era encontrá-lo tarde demais.

A mãe levantou-se em silêncio. Pegou na bolsa, conferiu o telemóvel e calçou os sapatos.

— Onde vais? — perguntou o pai.

Ela não respondeu de imediato.

— Nós ficamos à espera quando já não sabe o que fazer. — disse. — Eu ainda sei andar, então vou fazer alguma coisa.

Saiu de casa em passo lento e firme. 

A namorada permaneceu sentada, respirando com dificuldade. Sozinha na sala

O pai ficou onde estava, entre a porta, divido entre o luar e a lampada acesa na sala sem saber ainda se iria atrás do filho ou atrás do tempo que já não voltava.

 

 

  • Continua...
    🌕 2° Lua — 07 de fevereiro de 2026

 



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