quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Deus também fica em silêncio - 12 Luas Cheias (1° e 2° Lua)

 


Deus também fica em silêncio - 12 Luas Cheias

Nota de abertura

 Deus também fica em silêncio 12 Luas Cheias 

É uma única narrativa, contada em 12  partes, ao longo de um ano.
Não porque falte o que dizer, mas porque certas verdades só se revelam quando não são forçadas.

Como funciona

  • 1 parte por mês
  • Publicação: todo dia 7
  • Durante 12 meses
  • 2026

Leia no seu ritmo.  Tempo médio de leitura: 9 a 11 minutos,
Volte quando a lua voltar.

As Luas


🌕 1° Lua07 de janeiro de 2026 (publicado)

• 🌕 2° Lua07 de fevereiro de 2026 (publicado)
• 🌕 3° Lua07 de março de 2026
• 🌕 4° Lua07 de abril de 2026
• 🌕 5° Lua07 de maio de 2026
• 🌕 6° Lua07 de junho de 2026
• 🌕 7° Lua07 de julho de 2026
• 🌕 8° Lua07 de agosto de 2026
• 🌕 9° Lua07 de setembro de 2026
• 🌕 10° Lua07 de outubro de 2026
• 🌕 11° Lua07 de novembro de 2026
• 🌕 12° Lua07 de dezembro de 2026



Deus também fica em silêncio

 1° Lua


— Ele vem? — perguntou o pai, já deixando transparecer o aborrecimento com o rumo que a situação tomava. O misto de preocupação e nervos estava à flor da pele.

— Não sei. — a mãe respondeu quase num sussurro, enquanto pousava os pratos na mesa.

— Nunca sabes! — o pai replicou, batendo levemente na mesa. Uma taça deslizou e caiu sem partir.

A mãe olhou-o em silêncio. Demorou alguns segundos antes de falar.

— Você é um perdedor, você. — disse, e afastou-se logo depois de colocar o último talher sobre a mesa.

Ele, ainda insatisfeito, seguiu-a até à cozinha. Aproximou-se enquanto ela permanecia de costas, organizando o que restava para servir o jantar.

— Você sempre foge quando o assunto é o mau comportamento do teu filho querido. É você que alimenta isso nele.

— O que você quer Zé? Eu não quero discutir. Vamos jantar e acabou. — respondeu, já com a voz mais alta.

— É isso que você sempre faz. Guarda a sujeira debaixo do tapete.

— Que sujeira qual quê?

— O comportamento do teu filho querido.

— Ele também é teu filho. Então qualquer mau comportamento, a culpa também é tua.

— Minha culpa?

Ela virou-se de costas.

— Me deixa em paz.

Ele percebeu que já não discutiam sobre o filho. Discutiam sobre tudo o que nunca souberam dizer quando ainda havia tempo. E isso, de alguma forma, doía mais.

Ela tentou passar por ele para voltar à sala. Ele estendeu o braço, bloqueando-lhe a passagem. Por um segundo, nenhum dos dois se mexeu.  No movimento seguinte, a tigela cheia de funge escorregou e caiu no chão, espalhando tudo.

— É isso que você queria? — ele disse. — É isso que você queria?

— O que eu queria era que nós fôssemos uma família de verdade. E não três pessoas a viver na mesma casa.

— Mas a culpa é tua. Eu fiz tudo. Eu dei tudo o que uma mãe podia dar a um filho. Tudo. — disse, encarando-o. — Mas e você?

O pano amarrado à cintura dela soltou-se. O vestido sujo de fuba ficou exposto.

— E você acha que sair de madrugada e voltar ao anoitecer para pôr comida nesta casa, de janeiro a dezembro, não é dar no duro? Achas mesmo? — ele respondeu, exaltado. — Eu podia desperdiçar a minha vida na rua, mas sempre voltei para vocês. Sempre. E sempre saí para trabalhar, até nos meus piores dias.

— E esperas o quê, Zé? Aplausos? — ela apanhou o pano do chão e começou a bater palmas, carregando toda a ironia que lhe restava. — Foste trabalhar e sustentaste a tua família. Isso é o mínimo que se espera das responsabilidades de um homem. Queres um prémio por isso?

Ele virou-se de costas e passou as mãos pelo rosto, tentando conter o que já transbordava nos gestos.

— Um prémio? É isso?

Virou-se de repente e gritou:

— Eu queria respeito. Amor. — apontou em redor da cozinha. — Tudo o que fiz nesta casa foi por amor. Não precisei que me pagassem por isso. Faria tudo outra vez.

Sentou-se no banquinho mais próximo. A voz baixou, mas não perdeu peso.

— Mas não sei onde errei como pai… Tudo o que tentei foi ser um pai como o que tive.

Fez uma pausa.

— Agora olha para nós. Olha para mim, Teté… Vinte e seis anos depois, e ainda estamos aqui a discutir sobre como eu devia ter sido um bom pai.

Ele manteve-se sentado, o olhar perdido num ponto qualquer da cozinha.

— A culpa é minha. — disse, quase para si. — Sempre foi.

Ela não respondeu de imediato. Continuou a limpar o chão como se ainda houvesse algo para salvar do funge espalhado.

— Fui eu que devia ter visto antes. Fui eu que devia ter segurado aquilo quando começou a desandar. — levantou os olhos. — Ele é meu filho. Se algo deu errado, começa em mim.

A mãe parou. Endireitou-se devagar. Ficou de frente para ele.

— Não. — disse. — Não começa só em ti.

Ele abriu a boca para responder, mas ela continuou.

— Isso é mentira confortável. A culpa toda num só corpo parece mais fácil de carregar. Mas não é assim.

Ela respirou fundo.

— Como marido, tu foste bom, o melhor. Sempre foste. — fez um gesto vago com a mão. — Nunca foi isso.

Mas como pai… errámos. Os dois.

Ele franziu o rosto.

— Tu foste duro demais. Eu fui branda demais. Nunca falámos a mesma língua com ele. — disse ela. — Cada um puxou para um lado diferente, e chamámos isso de educação.

O silêncio voltou a sentar-se entre eles.


— As expectativas nunca bateram certo. — continuou. — Nem as nossas, nem as dele.
O que não dissemos quando devíamos dizer… virou hábito.
O que não fizemos quando ainda dava tempo… virou distância.

Ela baixou os olhos.

— Isso não é só culpa tua. É nossa.

Ele levantou-se de repente, a cadeira arrastando no chão.

— Mas eu sou o homem! — gritou. — Era eu que devia resolver isso. Eu devia ter noção. Eu devia ter segurado tudo antes de cair.

Passou as mãos pelo rosto, outra vez.

— Um homem não devia deixar o próprio filho perder-se assim.

Antes que ela respondesse, um som cortou o ar.

Alguém batia a porta. A mãe endireitou o corpo num sobressalto.

— Está aí. — disse num fio de voz. — Ele chegou.

O pai não se moveu.

— Agora lhe diz. — continuou ela, com os olhos fixos na porta. — Diz tudo o que disseste aqui.

Ele deu um passo, depois parou.

Bateram a porta outra vez.

Ela foi até à porta.

Quando abriu, não era ele. Era a namorada dele.

Ela entrou apressada, os olhos varrendo a sala antes mesmo de dizer qualquer coisa.

— Ele já chegou, mamã? — perguntou, ainda ofegante.

A mãe demorou um segundo a responder.

— Não… — disse. — Achámos que meu filho vinha contigo.

A namorada franziu o rosto, confusa.

— Comigo? Eu pensei que ele estivesse aqui. — olhou para o pai. — Ele disse que vinha para casa.

O pai não respondeu de imediato. Limitou-se a abanar a cabeça, quase imperceptível.

— Não veio. — disse por fim. — Desde ontem.

O silêncio caiu pesado, como se alguém tivesse fechado uma janela invisível.

— Então… — ela começou, mas não terminou a frase.

Deu um passo em frente e parou. Levou a mão à cabeça por um instante, depois desceu até à barriga, num gesto quase involuntário. O corpo cedeu ligeiramente.

A mãe foi rápida.

— Senta. — disse, segurando-lhe o braço. — Senta, por favor.

Ajudou-a até à cadeira. A namorada deixou-se ficar, respirando fundo, a mão ainda pousada sobre a barriga, agora sem tentar esconder.

A mãe olhou para aquilo e entendeu antes de perguntar.

— Há quanto tempo? — disse, num tom mais baixo do que vinha usando a noite inteira.

Um silêncio se extendeu por alguns segundos até que a namorada finalmente respondeu a dona Teté.

— Pouco. — respondeu ela. — Eu ainda nem…

Calou-se.

A mãe puxou outra cadeira e sentou-se à frente dela.

— Ele sabe? — perguntou.

A namorada abanou a cabeça.

— Não. Ia contar hoje.


Ninguém disse mais nada. Ficaram os três ali, de pé e sentados ao mesmo tempo, cada um num ponto diferente da mesma preocupação. O relógio da sala marcava o tempo com um som seco, regular, quase indecente.

Ele não estava ali. E ninguém sabia exatamente onde estava. Tio Zé olhou para ela ali sentada, a mão sobre a barriga, e sentiu algo que não soube nomear de imediato. Não era raiva. Não era culpa apenas. Era a percepção tardia de que o futuro não espera que os homens estejam prontos. Pensou no seu filho como pai pela primeira vez. Não como problema. Não como falha. Mas como continuidade. E isso o assustou mais do que tudo o que tinham discutido naquela noite.

Ser pai, afinal, não termina quando o filho cresce. Apenas muda de forma. 

O erro não se apaga. Ele atravessa gerações.

Perguntou-se se o filho teria medo como ele tivera. 

Se estaria agora algures a tentar ser homem sem saber exatamente como. 

Como ele próprio fizera, anos antes.  Repetindo gestos que achava certos apenas porque não conhecia outros.

O futuro, percebeu ali, não estava na barriga daquela rapariga. Estava naquilo que ninguém lhes ensinara a dizer a tempo. E o medo não era perdê-lo. Era vê-lo repetir tudo.

A mãe estendeu a mão e ajeitou o pano sobre a mesa, como se ainda houvesse jantar a servir.


— Ele deve aparecer. — disse, sem convicção. — Sempre aparece quando a comida já esfriou. — disse o tio Zé.

Ninguém respondeu. Ele olhou para o relógio e percebeu que aquela noite já durava mais do que devia. Pensou que tudo aquilo estava a acontecer rápido demais. O filho saíra de casa no dia anterior, e já parecia distante como alguém que partira há anos.

Entendeu ali que o tempo não avisa quando vai quebrar uma família. Apenas passa. E quando se percebe, já levou alguém junto. A mãe continuava a dobrar e desdobr a tolha de mesa.

A batida na porta não foi forte. Despertou-lhes logo. Três toques curtos. O pai levantou-se primeiro. Não por pressa, mas por instinto. Antes que chegasse à porta, suspirou.


Era um homem que nenhum deles conhecia bem. Rosto comum. Roupa comum.

— Boa noite. — disse. — Desculpem incomodar a esta hora.

O pai assentiu com a cabeça.

— Estamos à procura de um rapaz. — continuou o homem, olhando rapidamente para os três, como quem confirma se está no sítio certo. — Disseram-nos que ele mora aqui.

A mãe sentiu o corpo enrijecer.

— O nosso filho? — perguntou. — Ele não está em casa desde ontem.

O homem confirmou com um leve movimento de cabeça.

— Ele está bem? Fez alguma coisa?

— Sim, senhor!

— Sim o quê, caraças!

Houve uma pausa curta demais para ser confortável.

O homem ia responder quando uma voz surgiu do lado de fora.

— Não é aqui. — disse alguém. — É na outra casa.

Todos se viraram ao mesmo tempo.

Era um segundo homem, mais novo, apontando para a casa ao lado.

— Já confirmámos. — continuou. — A ocorrência é com o rapaz dali.

O pai sentiu o ar voltar aos pulmões num impulso brusco.

— Então… — disse devagar. — Então não é o meu filho.

O primeiro homem confirmou.

— Não. — disse. — Estamos à procura do Sérgio. — disse o nome, e o pai reconheceu-o de imediato. O amigo do filho. O vizinho. Desde criança.

O alívio veio rápido demais para ser limpo. Veio sujo. Misturado com outra coisa

— Não é ele que estamos a procurar. — acrescentou. — Mas estavam juntos.

O pai sentiu o chão perder alguma firmeza.

— Juntos onde? — perguntou.

— Ontem à noite. — respondeu o homem. — Depois disso, ninguém mais os viu.

O silêncio voltou a ocupar a sala.

— Se tiverem qualquer informação… — começou o homem, mas não terminou a frase.

Não precisava.

— Avisem-nos. — concluiu, por fim.

Ele deu um passo atrás, esperando alguma reação que não veio.

— Boa noite. — disse outra vez.

A porta permaneceu aberta, nenhum dos três se mexeu. A casa parecia maior. E perigosamente vazia. O pai fechou os olhos por um instante.

A mãe manteve-se de pé. Não sentou. Não caiu. Apenas respirou fundo, como quem se recusa a ceder naquele momento.

Pensou no filho pequeno, a brincar naquela mesma rua. Pensou em quantas vezes o chamara para dentro, e quantas vezes deixara passar. Pensou em como nunca se sabe exatamente o momento em que a vigilância vira confiança ou abandono.

O perigo não era ter feito algo errado. Era não saber onde ele estava agora.

A namorada mexeu-se na cadeira e comentou.

— Depois de ir ter comigo, eles estavam juntos ontem. — disse, num fio de voz. — Mas depois se separaram. Ele disse que vinha para casa.

— Disse a que horas? — perguntou a mãe, aproximando-se.

— Não. — respondeu ela. — Só disse que vinha.

— Então ninguém sabe onde está o meu filho. — disse o pai, mais como constatação do que pergunta.


Ficaram os três ali, ligados pela mesma ausência, tentando montar uma história com peças que não encaixavam. O filho não estava em casa. Não estava a ser procurado.
Mas também não estava seguro. E isso era pior do que qualquer acusação.


O pai foi até à porta e ficou ali, olhando para a rua vazia. Não era o filho que procuravam. Inspirou fundo, como quem tenta organizar o que ainda não aconteceu. Percebeu que, pela primeira vez, não tinha plano algum. Nem como homem. Nem como pai. E o medo, ali, já não era perdê-lo. Era encontrá-lo tarde demais.

A mãe levantou-se em silêncio. Pegou na bolsa, conferiu o telemóvel e calçou os sapatos.

— Onde vais? — perguntou o pai.

Ela não respondeu de imediato.

— Nós ficamos à espera quando já não sabe o que fazer. — disse. — Eu ainda sei andar, então vou fazer alguma coisa.

Saiu de casa em passo lento e firme. 

A namorada permaneceu sentada, respirando com dificuldade. Sozinha na sala

O pai ficou onde estava, entre a porta, divido entre o luar e a lampada acesa na sala sem saber ainda se iria atrás do filho ou atrás do tempo que já não voltava.

 

  • Continua...
    🌕 2° Lua — 07 de fevereiro de 2026


O pai ficou parado à porta por alguns segundos depois que a mãe saiu.  Ouvindo os seus passos afastarem-se. O som diminuiu até desaparecer, como tudo naquela casa fazia ultimamente. Fechou a porta devagar. A casa voltou a ser só dele, da luz acesa na sala e do silêncio da nora.

Olhou em volta como se estivesse ali pela primeira vez. Os móveis estavam nos mesmos lugares. A mesa ainda posta, a toalha mal dobrada, a cadeira do filho e da mulher vazias. Tudo parecia intacto demais para uma noite que já tinha quebrado tantas emoções. Voltou a sentar.

Era o mesmo silêncio que preenchia os jantares quando o filho se levantava antes de terminar. O mesmo que ficava depois de uma discussão interrompida. O mesmo que ele sempre confundira com paz. Passou a mão pelo rosto outra vez. Estava cansado, aquele cansaço que não melhora com sono, só com tempo, que agora, já não estava do seu lado.

Levantou-se e foi até ao quarto. Abriu a porta sem acender a luz. O quarto do filho estava como ele deixara. A cama desfeita. Um par de ténis junto à parede. A mochila pendurada atrás da porta. Nada fora levado às pressas. Nada indicava fuga. Só ausência.

Sentou-se na beira da cama. Passou a mão pelo colchão amarrotado, tentando confirmar que aquilo ainda era real. Pensou na primeira vez que o segurara nos braços. Pequeno. Frágil. Tão dependente que chegava a doer.


— Eu cuidei de ti… — disse em voz baixa, sem saber para quem.

Mas cuidar não era o mesmo que ensinar. E ensinar não era o mesmo que entender.

Lembrou-se do próprio pai. Do jeito duro. Das ordens curtas. Da certeza de que homem não reclama, aguenta. Ele aprendera aquilo cedo. E passara adiante sem questionar, como se fosse lei natural.

— Foi assim que me criaram… — murmurou. — E eu sobrevivi.

Mas sobreviver não era o mesmo que viver bem. E talvez o erro estivesse aí.

A rua recebeu a mãe sem cerimónia. A noite estava morna, mas havia qualquer coisa no ar que apertava o peito. Caminhou primeiro sem destino, precisava que o corpo começasse antes da cabeça. O pensamento vinha depois, sempre vinha.

Passou pela casa da vizinha mais antiga do quarteirão. A que vira o filho crescer.

— Mana Rosa? — chamou.

Nada.

Bateu outra vez. A luz acendeu-se lá dentro, mas ninguém veio. Esperou alguns segundos. Desistiu. Seguiu.

A rua parecia maior àquela hora. As casas mais afastadas. As sombras mais longas. Cada esquina escondia a possibilidade de uma resposta que ela não sabia se queria ouvir.

Virou na rua de baixo. Ali ele costumava parar quando voltava tarde. Um banco de cimento, a parede marcada por arte de rua antiga. Aproximou-se devagar, como se ele pudesse estar ali ainda, invisível, à espera.

Não estava.


Encontrou dois rapazes encostados à parede, a falar baixo. Parou a uma distância respeitosa.

— Boa noite. — disse. — Viram o meu filho passar por aqui?

Eles trocaram olhares rápidos. Um encolheu os ombros.

— Qual deles, mamã?

Ela descreveu. Com palavras simples. Roupa. Altura. O jeito de andar.

— Acho que sim… — disse o outro, sem convicção. — Mas foi tarde.

— Estava sozinho?

— Não sei.

O “não sei” caiu pesado. Agradeceu com a cabeça e afastou-se. Não insistiu. Já aprendera que respostas arrancadas à força vêm sempre tortas.


Continuou a andar. Passou pelo pequeno bar que ficava aberto até tarde. A música saía baixa, cansada. Entrou.

O homem atrás do balcão levantou os olhos.

— Boa noite.

— Boa noite. — respondeu ela. — Ontem à noite… o meu filho esteve aqui?

O homem pensou um pouco. Limpou o balcão sem necessidade.

— Vieram alguns jovens. — disse. — Não reparei bem.

— Ele costuma vir aqui.

— Costumava. — corrigiu. — Já não o vejo há uns dias.

O verbo no passado atingiu-a mais do que devia. Assentiu. Saiu antes que a voz lhe falhasse.


À medida que caminhava, a pressa inicial transformava-se num cansaço que vinha da repetição. Perguntar. Ouvir pouco. Agradecer. Andar outra vez.

Pensou nas vezes em que o chamara para dentro. Pensou nas vezes em que não chamara. Em como, sem perceber, fora afrouxando a vigilância, convencida de que aquilo se chamava confiança.


Passou pela igreja. A porta fechada. A luz apagada. Parou por um instante. Não entrou. Não rezou. Não pediu nada. Olhou apenas em silêncio.

O telemóvel vibrou no bolso. Um sobressalto breve. Tirou-o depressa.

Nada. Uma notificação qualquer. Guardou-o. Sentiu o peso da bolsa no ombro. Os pés começavam a doer. O corpo dava sinais que a cabeça ignorava. Continuou. Ainda havia mais lugares. Mais nomes. Mais portas.

A mãe chegou a um ponto da rua onde já não sabia bem o que procurava. As respostas começavam a repetir-se, e quando a realidade começa a repetir-se, é sinal de que algo está a esconder-se por baixo.


Parou junto a uma casa baixa, portão azul, meio enferrujado. Ali morava uma mulher que nunca falava muito, mas via tudo. Bateu palmas uma vez. Esperou. Bateu outra.

A porta abriu-se só o suficiente para um rosto aparecer.

— Boa noite. — disse a mãe. — Desculpa a hora.

A mulher avaliou-a rápido. O rosto cansado. A voz firme demais para a situação.

— Aconteceu alguma coisa?

— O meu filho não voltou para casa. — respondeu ela. — Disseram-me que ontem ele passou por aqui.

A mulher hesitou. Esse segundo de hesitação valeu mais do que qualquer palavra.

— Passou. — disse por fim. — Não ficou muito tempo.

— Estava sozinho?

A mulher desviou o olhar.

— Não.

A mãe sentiu o corpo reagir antes da cabeça.

— Com quem?

— Com o Sérgio… e mais dois. — respondeu. — Estavam  nervosos. Não era conversa de gente tranquila.

— Nervosos como?

A mulher encolheu os ombros.

— Como quem fez algo e ainda não sabe se deu certo.

O silêncio instalou-se pesado entre as duas.

— Eles discutiram? — perguntou a mãe.

— Não aqui. — respondeu a mulher. — Aqui foi só pressa.

A mãe agradeceu. Não perguntou mais. Percebeu que insistir não traria clareza, apenas versões.


Em casa, o pai voltou a ligar. Desta vez para um  número que não queria usar. Um conhecido distante. Um homem que sabia das coisas antes que se tornassem públicas.

— Fala. — disse do outro lado, sem cumprimentos.

— Preciso saber se ouviste algo. — respondeu o pai. — Sobre o meu filho. Ou o Sérgio.

Houve uma pausa mais longa do que o normal.

— Ainda não é assunto fechado. — disse o homem. — Mas ouvi rumores.

— Rumores de quê?

— De confusão. — respondeu. — Nada claro. Nada confirmado.

— Confusão não cai do céu. — disse o pai, com a voz tensa.

— Nem filhos se perdem sozinhos. — veio a resposta.

O pai fechou os olhos.

— Ele está envolvido em alguma coisa?

— Envolvido é uma palavra grande. — disse o homem. — Digamos que tem estado muito perto demais de quem  não devia.

— Perto de quem?

A chamada terminou ali. E o número já não chamava.


A namorada foi até ao quarto dele, quando o pai já havia se retirado, não acendeu a luz.

Sentou-se na cama que ela já conhecia bem o conforto. O telemóvel estava ali, mudo, pesado, cúmplice do silêncio. Passou a mão pela barriga ainda plana. Era medo dividido com desorientação.

Não era assim que ela imaginara contar. Não era assim que imaginara esperar. Não era assim que imaginara estar grávida, sozinha, àquela hora, sem saber se o pai do filho ainda cabia no verbo voltar.

Se ele não voltar…parou. Respirou fundo.  Se alguma coisa lhe acontecer…

Sentiu um aperto seco no peito. Não queria aquele futuro. Não sem ele. Não agora. A vida tinha antecipado capítulos demais.


Na rua, a mãe regressava. As pernas doíam, os pés arrastavam-se, e o cansaço tinha-se instalado em seu coração, mas não havia choro, só lucidez amarga.

Eram quase três da manhã. A casa apareceu ao fundo, com a luz da entrada acesa como um aviso. O pai estava à porta. Imóvel. Esperando por ela. Não parecia aliviado por vê-la voltar sozinha.

Quando finalmente ficaram próximos um do outro, não houve palavras, nem choros, apenas um olhar de desespero profundo, por fim, ele abraçou fortemente. Beijou sua testa e em seguida, dois sentaram-se na pequena escada de três degraus da entrada da casa. Mesmo sendo já de madrugada, mas os permaneceram ali, sentados e com a porta aberta atrás deles, e sem medo dos perigos noturnos.

O telemóvel do senhor Zé vibrava.

Atendeu.

— Alô?

A voz do outro lado não se apresentou.

Uma pausa curta, calculada.

— Nem tudo está perdido. — continuou. — Mas poderá estar.

O coração da mãe bateu errado.

— As coisas podem ficar piores — acrescentou a voz — se o que está guardadodentro da vossa casa não for devolvido.

Silêncio.

— Para qualquer dúvida… — concluiu — o Sérgio tem todas as respostas.

A chamada caiu.

Ele ficou parado por um segundo, como se o corpo precisasse de autorização para continuar. Guardou o telemóvel e seguiu. O Sérgio era o amigo do filho que háalgumas horas foi procurado sendo confundido como o filho e não estava em casa da mãe dele que era logo junto a casa deles. Então só poderia estar em casa do pai dele, que não era distante também.

Entraram  no carro ainda com o motor frio arrancaram e saíram disparados sem fechar a porta e sem despedir a namorada dentro de casa. Quase quatro da manhã. Nenhuma explicação. Nenhuma garantia.

A casa do Sérgio ficava perto demais para ser ignorada por tanto tempo. E assim que eles chegaram, o pai do Sérgio abriu a porta logo no primeiro toque da campainha e disse de imediato.
— Finalmente vocês chegaram, entrem logo! 

🌕 3° Lua — 07 de março de 2026

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