sexta-feira, 13 de março de 2026

A moça do café - Novo livro de Luis da Silva Ubuntu

 Qual proposta mudaria a sua vida para sempre? 

    Todos os dias, pelas ruas agitadas de Luanda, mulheres percorrem a cidade com cafeteiras de água morna e saquetas de café presas aos aventais. Entre o calor, o frio, a pressa e a indiferença de muitos olhares, carregam mais do que café; carregam responsabilidades, sonhos adiados e a luta diária pela sobrevivência.

     Entre elas está Meury, a famosa moça do café, conhecida nas ruas pela sua presença marcante e pelo sorriso contagiante, mesmo diante das dificuldades da vida. Ela enfrenta o mesmo percurso diariamente, movida por um único propósito: sustentar a sua família.

    Mas tudo muda quando um homem misterioso cruza o seu caminho e lhe faz uma proposta inusitada. De repente, tudo aquilo em que Meury acredita é colocado à prova. Entre aceitar uma oportunidade que pode transformar a sua vida de forma imediata ou continuar a lutar todos os dias pelos seus sonhos, ela terá de enfrentar as consequências da sua escolha. Porque, às vezes, uma única proposta é suficiente para mudar uma vida para sempre.

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sábado, 7 de fevereiro de 2026

CRÔNICA - TANTO NA MÁFIA COMO NA IGREJA - Hadil Almeida

 



“Honra, orgulho, respeito e lealdade não têm preço, mas perdê-los pode custar a sua vida.”

Esta série de quatro crônicas narrativas não se propõe a estabelecer comparações pejorativas entre dois grandes grupos historicamente influentes. Trata-se, antes, de uma reflexão sobre as similaridades estruturais e morais que regem ambos e que estão diretamente ligadas ao seu funcionamento, à longevidade e ao código de conduta exigido dos homens e mulheres que os integram.

Ao longo destas crônicas, abordarei quatro virtudes centrais honra, orgulho, respeito e lealdade uma em cada parte, exemplificando como tanto a máfia quanto a igreja reconhecem tais virtudes como pilares necessários para que o “bem maior”, segundo as suas próprias doutrinas, seja alcançado.

Convido-te a ler com atenção crítica e a opinar com honestidade.

TANTO NA MÁFIA COMO NA IGREJA

PART. I — HONRA

Honra é o ponto de abordagem nesta primeira parte da crônica narrativa, antes de discorrermos sobre as outras três virtudes.

Honra.
O que te vem em mente quando ouves esta palavra?
O que ela significa para ti?
Em quem pensas quando a escutas?
E, sobretudo, pergunta a ti mesmo: consideras-te um homem ou uma mulher de honra? Por quê?

É insólito perceber que a máfia e a igreja, apesar de ofícios tão distintos, partilham similaridades profundas. São dois grupos dominantes das massas, carregam reputações capazes de colocar milhares de homens de joelhos e, por vezes, deitados porque há pessoas dispostas a morrer ou matar por essas causas quando nelas acreditam veementemente.

Na máfia, a promessa de um homem ou um aperto de mão vale mais do que um acordo por escrito.
Na igreja, um juramento vale mais do que uma assinatura.

Diferente da formalidade parlamentar ou judicial, onde tudo precisa ser documentado para ser provado ou cumprido, tanto na máfia quanto na igreja a palavra do “crente” basta. A partir daí, rege a confiança de que o dito será cumprido. Quando um homem dá a sua palavra, espera-se que ele a cumpra ou morra tentando. Talvez por isso, em certos aspectos, mafiosos sejam mais fiéis a esse princípio, contrariando até o ditado: “não existe honra entre ladrões.”

A honra presente nos homens desses grandes grupos faz com que seus súditos levem a cabo missões destemidas, por lugares e circunstâncias onde homens sem honra desistiriam pelo caminho. Estar disposto a morrer por uma causa faz com que os homens ao redor acreditem nela fielmente, ainda que não seja justa ou verdadeira.

Quando trazemos a honra para o contexto da sociedade em geral, os exemplos de sua ausência são abundantes:
homens fugindo da parentalidade; médicos quebrando o juramento de Hipócrates; políticos que jamais cumprem promessas de campanha; promessas de amor que se transformam em corações partidos;
e até a louça que recusaste lavar, mas repetiste ao comer sim, você mesmo.
Provavelmente, até os teus pais também carregam exemplos de falta de honra mas falaremos deles na próxima

Diante disso, é fácil perceber como o mundo seria mais recto se todos honrássemos a própria palavra.

Tanto os mafiosos quanto os homens tementes a um Ser Superior partilham uma crença inabalável de que estão certos e dispostos a cumprir ordens vindas dos seus superiores. Por isso, a máfia tornou-se uma grande corporação funcional, capaz de manipular sistemas sociais e políticos em seu benefício, pois os homens que a operam estão dispostos a honrar seus deveres, inclusive os mais obscuros. Pelo mesmo motivo, a igreja tornou-se uma grande corporação funcional, capaz de influenciar e descredibilizar sistemas sociais e políticos, agregando pessoas em torno de si, porque seus homens honram ordens e dogmas sem necessariamente questionar sua lógica.

Se um mafioso trai a esposa, é afastado da organização.
Se um crente trai a esposa, comete adultério pecado punível conforme a doutrina.

Se um mafioso não cuida da família, é visto como incapaz de cumprir suas funções.
Se um crente não cuida da família, descumpre o papel de provedor que lhe é atribuído.

Esses são apenas alguns paralelos. Fiz a equiparação focando nos homens porque, na máfia, mulheres não são aceitas, e, na igreja, ainda sofrem um patriarcado subtil para ocupar cargos de topo outra similaridade.

Dois vencedores, ainda que de ofícios distintos, sempre partilham algo em comum. O mesmo vale para os perdedores.

A máfia e a igreja estão espalhadas pelo mundo, têm milhares de seguidores, negociam, perdem, ganham e continuam crescendo. Por quê? Porque existem homens íntegros pela causa, dispostos a honrar compromissos, ou até morrer para que seus sucessores cumpram o plano.

A honra pode ser distorcida para o mal, mas continua sendo uma virtude fundamental para qualquer pessoa que deseje construir reputação, legado e participar conscientemente da engrenagem que sustenta as gerações futuras.

TANTO NA MÁFIA COMO NA IGREJA

PART. II — ORGULHO

“Honra, orgulho, respeito e lealdade não têm preço, mas perdê-los pode custar a sua vida.”

Orgulho é o ponto central desta segunda parte.

Aqui há uma ambiguidade essencial que precisa ser compreendida: ter orgulho e ser orgulhoso não são a mesma coisa.

Ser orgulhoso remete a um traço de carácter marcado pela vaidade excessiva, pela recusa da lógica alheia e pela convicção absoluta de que não se deve reverenciar sob qualquer circunstância.
Ter orgulho, por outro lado, é sentir alegria, satisfação e euforia pela concretização de algo ou por alguém.

Tanto a máfia quanto a igreja transitam entre essas duas posturas. Orgulham-se das suas glórias, tradições e feitos. E, ao mesmo tempo, são orgulhosas demais para admitir que podem estar erradas mesmo quando estão.

Ao longo da história, ambos os grupos adotaram posturas radicais na defesa de ideias, dogmas e práticas que jamais retrocederiam, justamente porque funcionaram. O orgulho nasce do resultado.

Esse orgulho vem de séculos de tradições, rituais, crenças e regras que se provaram eficazes para o progresso dessas organizações e se tornaram dogmas.

Algumas similaridades:
• A máfia não aceita membros homossexuais; tolerância zero. A igreja também condena relações homossexuais.
• A máfia acredita que apenas homens podem chefiar famílias. A igreja mantém visão semelhante sobre liderança feminina.

Mesmo que se argumente que tais posições estão erradas, é difícil confrontar o orgulho de sistemas que, sob seus próprios critérios, funcionam há décadas.

No âmbito social, o orgulho pode ser tanto um monte de merda que não desce nem puxando o autoclismo quanto a maior sensação de euforia pela realização de uma meta.

Ser orgulhoso:
• “Não vou pedir desculpas, ela também errou.” orgulho matando o amor.
• “Não tenho que sustentar meus pais.” orgulho matando a fraternidade.

Ter orgulho:
• “Tenho orgulho do que construímos.”
• “Tenho orgulho de ti, meu filho.”

O orgulho é uma faca de dois gumes. Pode destruir ou edificar. Afirmar domínio total sobre algo é fechar-se ao aprendizado. Baixa o orgulho não o confundas com ego e permanece aberto a aprender.

Podemos aprender com crianças, com quem tem menos estudo e até com os mortos. Reconhecer que tudo o que sabemos é pouco diante do que ainda podemos aprender é sabedoria. A máfia e a igreja compreenderam isso cedo; por isso continuam absorvendo conhecimento e práticas eficazes pelo mundo.

TANTO NA MÁFIA COMO NA IGREJA

PART. III — RESPEITO

“Honra, orgulho, respeito e lealdade não têm preço, mas perdê-los pode custar a sua vida.”

Respeito é o tema desta terceira parte.

Diferente da honra e do orgulho, o respeito é bilateral: aquilo que oferecemos aos outros e aquilo que recebemos deles. Harvey Specter disse: “O respeito é uma via de mão dupla.”

Uma pessoa respeitosa não escolhe quem respeitar: trata mendigos e reis com educação. Quando o respeito falta do outro lado, a resposta costuma espelhar o mesmo nível.

Entre o que nos ensinam sobre como tratar os outros e como realmente os tratamos está a medida do nosso respeito. Entre o que fazemos e o que deixamos de fazer está o quanto somos respeitados.

Da família às ruas, das escolas à máfia e à igreja, o respeito sustenta organizações eficientes. Respeitar a cadeia de comando é essencial. Quem governa apenas pelo medo não é respeitado, é temido e o medo faz as flores secarem.

Tanto a máfia quanto a igreja compreenderam cedo que, para agregar pessoas, é preciso respeitá-las e fazê-las sentir que ganharão mais respeito ao integrar o grupo.

“Eu não concordo com a sua opinião, mas respeito.”
Essa frase raramente é verdadeira, mas funciona. O simples acto de simular respeito faz o outro sentir-se compreendido, abrindo espaço para reciprocidade.

Todos desejam ser respeitados. Não é diferente com essas organizações, que investem pesado para alcançar metas e preservar reputação.

• “Respeitai os vossos pais e superiores.” Bíblia.
• “Guarde a arma e ajude a velhinha a atravessar a rua.”  ditado mafioso.

O respeito não é exigido; é merecido. É ensinado dos mais velhos aos mais novos. Um adulto precisa respeitar uma criança para ser respeitado por ela.

Quando o respeito não é concedido, ambos os grupos sabem impor. A história das religiões e da máfia está repleta de exemplos.

Educar uma criança corretamente evita punir um adulto.

TANTO NA MÁFIA COMO NA IGREJA

PART. IV — LEALDADE

“Honra, orgulho, respeito e lealdade não têm preço, mas perdê-los pode custar a sua vida.”

Lealdade encerra esta série.

Lealdade é escolha. Não é exigida; é oferecida. Não deve ser confundida com fidelidade. A pessoa leal protege, defende e permanece mesmo discordando porque o propósito é maior.

Na máfia e na igreja, homens e mulheres demonstram lealdade através de actos: silêncio, defesa pública, sacrifício. Sempre de forma recíproca.

A lealdade não deve ser mendigada. Permite que o outro revele se é leal. Se não for, afasta-te.

A história está repleta de exemplos de traição por conveniência: Pedro negando Cristo; Tommaso Buscetta quebrando o juramento de silêncio.

Existe satisfação maior do que viver e morrer leal a uma causa nobre ou a alguém que amamos?

Nada disso é possível sem lealdade.

Se te consideras leal, pouco importa o rótulo. O que importa é sê-lo.

Por: Hadil Almeida


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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

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quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Livros de Hadil Almeida



                                                       📕 Livro : A Sucata humana e os espíritos  Sinopse:
A obra 'A sucata humana e os espíritos' de Hadil Almeida se passa em Luanda, 1986, e segue a jovem datilógrafa Vissolela, que se envolve na vida de um homem enigmático, conhecido como D, enquanto ele narra uma história marcada por amor, traição e vingança. O romance explora temas de trauma e redenção em um contexto de guerra civil, onde os personagens lutam para encontrar paz em meio ao caos. A narrativa é uma jornada emocional que desafia as percepções sobre o que é real e o que é espiritual.

                                                   Leia aqui "A sucata humana e os espíritos"



📕 Livro: Uma boleia do destino (Trilogia)




Neste segundo livro, a nossa boleia continua na mesma rota para o destino. O destino da relação do Lobo e da Ângela. Eram apenas meros desconhecidos se cruzando na Universidade, até o dia em que Ângela decide dar uma boleia ao jovem Lobo e após essa ocasião tudo muda entre eles. Nasce uma paixão ardente, guiada por desejos profanos que os fazia sentirem-se santos perto um do outro. O amor intensificava. Mas descobertas de segredos sombrios afetam a confiança criada e põem em causa o futuro da relação. Entretanto, todas histórias têm os seus momentos de amor e de guerra. Até as paixões mais intensas cessam; grandes amores se tornam apenas um número gravado em nossa lista telefônica, e todos planos para o futuro se tornam meras lembranças de momentos nunca vividos. Nessa segunda parte, os leitores chegaram bem a tempo na paragem para pegarem essa boleia e acompanharem a jornada desse romance, que talvez termine com anéis no altar duma igreja ou com um acidente que leva essa boleia à Um Lugar Errado.

Leia "Uma boleia do destino"



📕 Livro: Guerra, Amor e café

Leia "Guerra, amor e Café"



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quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Deus também fica em silêncio - 12 Luas Cheias (1° e 2° Lua)

 


Deus também fica em silêncio - 12 Luas Cheias

Nota de abertura

 Deus também fica em silêncio 12 Luas Cheias 

É uma única narrativa, contada em 12  partes, ao longo de um ano.
Não porque falte o que dizer, mas porque certas verdades só se revelam quando não são forçadas.

Como funciona

  • 1 parte por mês
  • Publicação: todo dia 7
  • Durante 12 meses
  • 2026

Leia no seu ritmo.  Tempo médio de leitura: 9 a 11 minutos,
Volte quando a lua voltar.

As Luas


🌕 1° Lua07 de janeiro de 2026 (publicado)

• 🌕 2° Lua07 de fevereiro de 2026 (publicado)
• 🌕 3° Lua07 de março de 2026
• 🌕 4° Lua07 de abril de 2026
• 🌕 5° Lua07 de maio de 2026
• 🌕 6° Lua07 de junho de 2026
• 🌕 7° Lua07 de julho de 2026
• 🌕 8° Lua07 de agosto de 2026
• 🌕 9° Lua07 de setembro de 2026
• 🌕 10° Lua07 de outubro de 2026
• 🌕 11° Lua07 de novembro de 2026
• 🌕 12° Lua07 de dezembro de 2026



Deus também fica em silêncio

 1° Lua


— Ele vem? — perguntou o pai, já deixando transparecer o aborrecimento com o rumo que a situação tomava. O misto de preocupação e nervos estava à flor da pele.

— Não sei. — a mãe respondeu quase num sussurro, enquanto pousava os pratos na mesa.

— Nunca sabes! — o pai replicou, batendo levemente na mesa. Uma taça deslizou e caiu sem partir.

A mãe olhou-o em silêncio. Demorou alguns segundos antes de falar.

— Você é um perdedor, você. — disse, e afastou-se logo depois de colocar o último talher sobre a mesa.

Ele, ainda insatisfeito, seguiu-a até à cozinha. Aproximou-se enquanto ela permanecia de costas, organizando o que restava para servir o jantar.

— Você sempre foge quando o assunto é o mau comportamento do teu filho querido. É você que alimenta isso nele.

— O que você quer Zé? Eu não quero discutir. Vamos jantar e acabou. — respondeu, já com a voz mais alta.

— É isso que você sempre faz. Guarda a sujeira debaixo do tapete.

— Que sujeira qual quê?

— O comportamento do teu filho querido.

— Ele também é teu filho. Então qualquer mau comportamento, a culpa também é tua.

— Minha culpa?

Ela virou-se de costas.

— Me deixa em paz.

Ele percebeu que já não discutiam sobre o filho. Discutiam sobre tudo o que nunca souberam dizer quando ainda havia tempo. E isso, de alguma forma, doía mais.

Ela tentou passar por ele para voltar à sala. Ele estendeu o braço, bloqueando-lhe a passagem. Por um segundo, nenhum dos dois se mexeu.  No movimento seguinte, a tigela cheia de funge escorregou e caiu no chão, espalhando tudo.

— É isso que você queria? — ele disse. — É isso que você queria?

— O que eu queria era que nós fôssemos uma família de verdade. E não três pessoas a viver na mesma casa.

— Mas a culpa é tua. Eu fiz tudo. Eu dei tudo o que uma mãe podia dar a um filho. Tudo. — disse, encarando-o. — Mas e você?

O pano amarrado à cintura dela soltou-se. O vestido sujo de fuba ficou exposto.

— E você acha que sair de madrugada e voltar ao anoitecer para pôr comida nesta casa, de janeiro a dezembro, não é dar no duro? Achas mesmo? — ele respondeu, exaltado. — Eu podia desperdiçar a minha vida na rua, mas sempre voltei para vocês. Sempre. E sempre saí para trabalhar, até nos meus piores dias.

— E esperas o quê, Zé? Aplausos? — ela apanhou o pano do chão e começou a bater palmas, carregando toda a ironia que lhe restava. — Foste trabalhar e sustentaste a tua família. Isso é o mínimo que se espera das responsabilidades de um homem. Queres um prémio por isso?

Ele virou-se de costas e passou as mãos pelo rosto, tentando conter o que já transbordava nos gestos.

— Um prémio? É isso?

Virou-se de repente e gritou:

— Eu queria respeito. Amor. — apontou em redor da cozinha. — Tudo o que fiz nesta casa foi por amor. Não precisei que me pagassem por isso. Faria tudo outra vez.

Sentou-se no banquinho mais próximo. A voz baixou, mas não perdeu peso.

— Mas não sei onde errei como pai… Tudo o que tentei foi ser um pai como o que tive.

Fez uma pausa.

— Agora olha para nós. Olha para mim, Teté… Vinte e seis anos depois, e ainda estamos aqui a discutir sobre como eu devia ter sido um bom pai.

Ele manteve-se sentado, o olhar perdido num ponto qualquer da cozinha.

— A culpa é minha. — disse, quase para si. — Sempre foi.

Ela não respondeu de imediato. Continuou a limpar o chão como se ainda houvesse algo para salvar do funge espalhado.

— Fui eu que devia ter visto antes. Fui eu que devia ter segurado aquilo quando começou a desandar. — levantou os olhos. — Ele é meu filho. Se algo deu errado, começa em mim.

A mãe parou. Endireitou-se devagar. Ficou de frente para ele.

— Não. — disse. — Não começa só em ti.

Ele abriu a boca para responder, mas ela continuou.

— Isso é mentira confortável. A culpa toda num só corpo parece mais fácil de carregar. Mas não é assim.

Ela respirou fundo.

— Como marido, tu foste bom, o melhor. Sempre foste. — fez um gesto vago com a mão. — Nunca foi isso.

Mas como pai… errámos. Os dois.

Ele franziu o rosto.

— Tu foste duro demais. Eu fui branda demais. Nunca falámos a mesma língua com ele. — disse ela. — Cada um puxou para um lado diferente, e chamámos isso de educação.

O silêncio voltou a sentar-se entre eles.


— As expectativas nunca bateram certo. — continuou. — Nem as nossas, nem as dele.
O que não dissemos quando devíamos dizer… virou hábito.
O que não fizemos quando ainda dava tempo… virou distância.

Ela baixou os olhos.

— Isso não é só culpa tua. É nossa.

Ele levantou-se de repente, a cadeira arrastando no chão.

— Mas eu sou o homem! — gritou. — Era eu que devia resolver isso. Eu devia ter noção. Eu devia ter segurado tudo antes de cair.

Passou as mãos pelo rosto, outra vez.

— Um homem não devia deixar o próprio filho perder-se assim.

Antes que ela respondesse, um som cortou o ar.

Alguém batia a porta. A mãe endireitou o corpo num sobressalto.

— Está aí. — disse num fio de voz. — Ele chegou.

O pai não se moveu.

— Agora lhe diz. — continuou ela, com os olhos fixos na porta. — Diz tudo o que disseste aqui.

Ele deu um passo, depois parou.

Bateram a porta outra vez.

Ela foi até à porta.

Quando abriu, não era ele. Era a namorada dele.

Ela entrou apressada, os olhos varrendo a sala antes mesmo de dizer qualquer coisa.

— Ele já chegou, mamã? — perguntou, ainda ofegante.

A mãe demorou um segundo a responder.

— Não… — disse. — Achámos que meu filho vinha contigo.

A namorada franziu o rosto, confusa.

— Comigo? Eu pensei que ele estivesse aqui. — olhou para o pai. — Ele disse que vinha para casa.

O pai não respondeu de imediato. Limitou-se a abanar a cabeça, quase imperceptível.

— Não veio. — disse por fim. — Desde ontem.

O silêncio caiu pesado, como se alguém tivesse fechado uma janela invisível.

— Então… — ela começou, mas não terminou a frase.

Deu um passo em frente e parou. Levou a mão à cabeça por um instante, depois desceu até à barriga, num gesto quase involuntário. O corpo cedeu ligeiramente.

A mãe foi rápida.

— Senta. — disse, segurando-lhe o braço. — Senta, por favor.

Ajudou-a até à cadeira. A namorada deixou-se ficar, respirando fundo, a mão ainda pousada sobre a barriga, agora sem tentar esconder.

A mãe olhou para aquilo e entendeu antes de perguntar.

— Há quanto tempo? — disse, num tom mais baixo do que vinha usando a noite inteira.

Um silêncio se extendeu por alguns segundos até que a namorada finalmente respondeu a dona Teté.

— Pouco. — respondeu ela. — Eu ainda nem…

Calou-se.

A mãe puxou outra cadeira e sentou-se à frente dela.

— Ele sabe? — perguntou.

A namorada abanou a cabeça.

— Não. Ia contar hoje.


Ninguém disse mais nada. Ficaram os três ali, de pé e sentados ao mesmo tempo, cada um num ponto diferente da mesma preocupação. O relógio da sala marcava o tempo com um som seco, regular, quase indecente.

Ele não estava ali. E ninguém sabia exatamente onde estava. Tio Zé olhou para ela ali sentada, a mão sobre a barriga, e sentiu algo que não soube nomear de imediato. Não era raiva. Não era culpa apenas. Era a percepção tardia de que o futuro não espera que os homens estejam prontos. Pensou no seu filho como pai pela primeira vez. Não como problema. Não como falha. Mas como continuidade. E isso o assustou mais do que tudo o que tinham discutido naquela noite.

Ser pai, afinal, não termina quando o filho cresce. Apenas muda de forma. 

O erro não se apaga. Ele atravessa gerações.

Perguntou-se se o filho teria medo como ele tivera. 

Se estaria agora algures a tentar ser homem sem saber exatamente como. 

Como ele próprio fizera, anos antes.  Repetindo gestos que achava certos apenas porque não conhecia outros.

O futuro, percebeu ali, não estava na barriga daquela rapariga. Estava naquilo que ninguém lhes ensinara a dizer a tempo. E o medo não era perdê-lo. Era vê-lo repetir tudo.

A mãe estendeu a mão e ajeitou o pano sobre a mesa, como se ainda houvesse jantar a servir.


— Ele deve aparecer. — disse, sem convicção. — Sempre aparece quando a comida já esfriou. — disse o tio Zé.

Ninguém respondeu. Ele olhou para o relógio e percebeu que aquela noite já durava mais do que devia. Pensou que tudo aquilo estava a acontecer rápido demais. O filho saíra de casa no dia anterior, e já parecia distante como alguém que partira há anos.

Entendeu ali que o tempo não avisa quando vai quebrar uma família. Apenas passa. E quando se percebe, já levou alguém junto. A mãe continuava a dobrar e desdobr a tolha de mesa.

A batida na porta não foi forte. Despertou-lhes logo. Três toques curtos. O pai levantou-se primeiro. Não por pressa, mas por instinto. Antes que chegasse à porta, suspirou.


Era um homem que nenhum deles conhecia bem. Rosto comum. Roupa comum.

— Boa noite. — disse. — Desculpem incomodar a esta hora.

O pai assentiu com a cabeça.

— Estamos à procura de um rapaz. — continuou o homem, olhando rapidamente para os três, como quem confirma se está no sítio certo. — Disseram-nos que ele mora aqui.

A mãe sentiu o corpo enrijecer.

— O nosso filho? — perguntou. — Ele não está em casa desde ontem.

O homem confirmou com um leve movimento de cabeça.

— Ele está bem? Fez alguma coisa?

— Sim, senhor!

— Sim o quê, caraças!

Houve uma pausa curta demais para ser confortável.

O homem ia responder quando uma voz surgiu do lado de fora.

— Não é aqui. — disse alguém. — É na outra casa.

Todos se viraram ao mesmo tempo.

Era um segundo homem, mais novo, apontando para a casa ao lado.

— Já confirmámos. — continuou. — A ocorrência é com o rapaz dali.

O pai sentiu o ar voltar aos pulmões num impulso brusco.

— Então… — disse devagar. — Então não é o meu filho.

O primeiro homem confirmou.

— Não. — disse. — Estamos à procura do Sérgio. — disse o nome, e o pai reconheceu-o de imediato. O amigo do filho. O vizinho. Desde criança.

O alívio veio rápido demais para ser limpo. Veio sujo. Misturado com outra coisa

— Não é ele que estamos a procurar. — acrescentou. — Mas estavam juntos.

O pai sentiu o chão perder alguma firmeza.

— Juntos onde? — perguntou.

— Ontem à noite. — respondeu o homem. — Depois disso, ninguém mais os viu.

O silêncio voltou a ocupar a sala.

— Se tiverem qualquer informação… — começou o homem, mas não terminou a frase.

Não precisava.

— Avisem-nos. — concluiu, por fim.

Ele deu um passo atrás, esperando alguma reação que não veio.

— Boa noite. — disse outra vez.

A porta permaneceu aberta, nenhum dos três se mexeu. A casa parecia maior. E perigosamente vazia. O pai fechou os olhos por um instante.

A mãe manteve-se de pé. Não sentou. Não caiu. Apenas respirou fundo, como quem se recusa a ceder naquele momento.

Pensou no filho pequeno, a brincar naquela mesma rua. Pensou em quantas vezes o chamara para dentro, e quantas vezes deixara passar. Pensou em como nunca se sabe exatamente o momento em que a vigilância vira confiança ou abandono.

O perigo não era ter feito algo errado. Era não saber onde ele estava agora.

A namorada mexeu-se na cadeira e comentou.

— Depois de ir ter comigo, eles estavam juntos ontem. — disse, num fio de voz. — Mas depois se separaram. Ele disse que vinha para casa.

— Disse a que horas? — perguntou a mãe, aproximando-se.

— Não. — respondeu ela. — Só disse que vinha.

— Então ninguém sabe onde está o meu filho. — disse o pai, mais como constatação do que pergunta.


Ficaram os três ali, ligados pela mesma ausência, tentando montar uma história com peças que não encaixavam. O filho não estava em casa. Não estava a ser procurado.
Mas também não estava seguro. E isso era pior do que qualquer acusação.


O pai foi até à porta e ficou ali, olhando para a rua vazia. Não era o filho que procuravam. Inspirou fundo, como quem tenta organizar o que ainda não aconteceu. Percebeu que, pela primeira vez, não tinha plano algum. Nem como homem. Nem como pai. E o medo, ali, já não era perdê-lo. Era encontrá-lo tarde demais.

A mãe levantou-se em silêncio. Pegou na bolsa, conferiu o telemóvel e calçou os sapatos.

— Onde vais? — perguntou o pai.

Ela não respondeu de imediato.

— Nós ficamos à espera quando já não sabe o que fazer. — disse. — Eu ainda sei andar, então vou fazer alguma coisa.

Saiu de casa em passo lento e firme. 

A namorada permaneceu sentada, respirando com dificuldade. Sozinha na sala

O pai ficou onde estava, entre a porta, divido entre o luar e a lampada acesa na sala sem saber ainda se iria atrás do filho ou atrás do tempo que já não voltava.

 

  • Continua...
    🌕 2° Lua — 07 de fevereiro de 2026


O pai ficou parado à porta por alguns segundos depois que a mãe saiu.  Ouvindo os seus passos afastarem-se. O som diminuiu até desaparecer, como tudo naquela casa fazia ultimamente. Fechou a porta devagar. A casa voltou a ser só dele, da luz acesa na sala e do silêncio da nora.

Olhou em volta como se estivesse ali pela primeira vez. Os móveis estavam nos mesmos lugares. A mesa ainda posta, a toalha mal dobrada, a cadeira do filho e da mulher vazias. Tudo parecia intacto demais para uma noite que já tinha quebrado tantas emoções. Voltou a sentar.

Era o mesmo silêncio que preenchia os jantares quando o filho se levantava antes de terminar. O mesmo que ficava depois de uma discussão interrompida. O mesmo que ele sempre confundira com paz. Passou a mão pelo rosto outra vez. Estava cansado, aquele cansaço que não melhora com sono, só com tempo, que agora, já não estava do seu lado.

Levantou-se e foi até ao quarto. Abriu a porta sem acender a luz. O quarto do filho estava como ele deixara. A cama desfeita. Um par de ténis junto à parede. A mochila pendurada atrás da porta. Nada fora levado às pressas. Nada indicava fuga. Só ausência.

Sentou-se na beira da cama. Passou a mão pelo colchão amarrotado, tentando confirmar que aquilo ainda era real. Pensou na primeira vez que o segurara nos braços. Pequeno. Frágil. Tão dependente que chegava a doer.


— Eu cuidei de ti… — disse em voz baixa, sem saber para quem.

Mas cuidar não era o mesmo que ensinar. E ensinar não era o mesmo que entender.

Lembrou-se do próprio pai. Do jeito duro. Das ordens curtas. Da certeza de que homem não reclama, aguenta. Ele aprendera aquilo cedo. E passara adiante sem questionar, como se fosse lei natural.

— Foi assim que me criaram… — murmurou. — E eu sobrevivi.

Mas sobreviver não era o mesmo que viver bem. E talvez o erro estivesse aí.

A rua recebeu a mãe sem cerimónia. A noite estava morna, mas havia qualquer coisa no ar que apertava o peito. Caminhou primeiro sem destino, precisava que o corpo começasse antes da cabeça. O pensamento vinha depois, sempre vinha.

Passou pela casa da vizinha mais antiga do quarteirão. A que vira o filho crescer.

— Mana Rosa? — chamou.

Nada.

Bateu outra vez. A luz acendeu-se lá dentro, mas ninguém veio. Esperou alguns segundos. Desistiu. Seguiu.

A rua parecia maior àquela hora. As casas mais afastadas. As sombras mais longas. Cada esquina escondia a possibilidade de uma resposta que ela não sabia se queria ouvir.

Virou na rua de baixo. Ali ele costumava parar quando voltava tarde. Um banco de cimento, a parede marcada por arte de rua antiga. Aproximou-se devagar, como se ele pudesse estar ali ainda, invisível, à espera.

Não estava.


Encontrou dois rapazes encostados à parede, a falar baixo. Parou a uma distância respeitosa.

— Boa noite. — disse. — Viram o meu filho passar por aqui?

Eles trocaram olhares rápidos. Um encolheu os ombros.

— Qual deles, mamã?

Ela descreveu. Com palavras simples. Roupa. Altura. O jeito de andar.

— Acho que sim… — disse o outro, sem convicção. — Mas foi tarde.

— Estava sozinho?

— Não sei.

O “não sei” caiu pesado. Agradeceu com a cabeça e afastou-se. Não insistiu. Já aprendera que respostas arrancadas à força vêm sempre tortas.


Continuou a andar. Passou pelo pequeno bar que ficava aberto até tarde. A música saía baixa, cansada. Entrou.

O homem atrás do balcão levantou os olhos.

— Boa noite.

— Boa noite. — respondeu ela. — Ontem à noite… o meu filho esteve aqui?

O homem pensou um pouco. Limpou o balcão sem necessidade.

— Vieram alguns jovens. — disse. — Não reparei bem.

— Ele costuma vir aqui.

— Costumava. — corrigiu. — Já não o vejo há uns dias.

O verbo no passado atingiu-a mais do que devia. Assentiu. Saiu antes que a voz lhe falhasse.


À medida que caminhava, a pressa inicial transformava-se num cansaço que vinha da repetição. Perguntar. Ouvir pouco. Agradecer. Andar outra vez.

Pensou nas vezes em que o chamara para dentro. Pensou nas vezes em que não chamara. Em como, sem perceber, fora afrouxando a vigilância, convencida de que aquilo se chamava confiança.


Passou pela igreja. A porta fechada. A luz apagada. Parou por um instante. Não entrou. Não rezou. Não pediu nada. Olhou apenas em silêncio.

O telemóvel vibrou no bolso. Um sobressalto breve. Tirou-o depressa.

Nada. Uma notificação qualquer. Guardou-o. Sentiu o peso da bolsa no ombro. Os pés começavam a doer. O corpo dava sinais que a cabeça ignorava. Continuou. Ainda havia mais lugares. Mais nomes. Mais portas.

A mãe chegou a um ponto da rua onde já não sabia bem o que procurava. As respostas começavam a repetir-se, e quando a realidade começa a repetir-se, é sinal de que algo está a esconder-se por baixo.


Parou junto a uma casa baixa, portão azul, meio enferrujado. Ali morava uma mulher que nunca falava muito, mas via tudo. Bateu palmas uma vez. Esperou. Bateu outra.

A porta abriu-se só o suficiente para um rosto aparecer.

— Boa noite. — disse a mãe. — Desculpa a hora.

A mulher avaliou-a rápido. O rosto cansado. A voz firme demais para a situação.

— Aconteceu alguma coisa?

— O meu filho não voltou para casa. — respondeu ela. — Disseram-me que ontem ele passou por aqui.

A mulher hesitou. Esse segundo de hesitação valeu mais do que qualquer palavra.

— Passou. — disse por fim. — Não ficou muito tempo.

— Estava sozinho?

A mulher desviou o olhar.

— Não.

A mãe sentiu o corpo reagir antes da cabeça.

— Com quem?

— Com o Sérgio… e mais dois. — respondeu. — Estavam  nervosos. Não era conversa de gente tranquila.

— Nervosos como?

A mulher encolheu os ombros.

— Como quem fez algo e ainda não sabe se deu certo.

O silêncio instalou-se pesado entre as duas.

— Eles discutiram? — perguntou a mãe.

— Não aqui. — respondeu a mulher. — Aqui foi só pressa.

A mãe agradeceu. Não perguntou mais. Percebeu que insistir não traria clareza, apenas versões.


Em casa, o pai voltou a ligar. Desta vez para um  número que não queria usar. Um conhecido distante. Um homem que sabia das coisas antes que se tornassem públicas.

— Fala. — disse do outro lado, sem cumprimentos.

— Preciso saber se ouviste algo. — respondeu o pai. — Sobre o meu filho. Ou o Sérgio.

Houve uma pausa mais longa do que o normal.

— Ainda não é assunto fechado. — disse o homem. — Mas ouvi rumores.

— Rumores de quê?

— De confusão. — respondeu. — Nada claro. Nada confirmado.

— Confusão não cai do céu. — disse o pai, com a voz tensa.

— Nem filhos se perdem sozinhos. — veio a resposta.

O pai fechou os olhos.

— Ele está envolvido em alguma coisa?

— Envolvido é uma palavra grande. — disse o homem. — Digamos que tem estado muito perto demais de quem  não devia.

— Perto de quem?

A chamada terminou ali. E o número já não chamava.


A namorada foi até ao quarto dele, quando o pai já havia se retirado, não acendeu a luz.

Sentou-se na cama que ela já conhecia bem o conforto. O telemóvel estava ali, mudo, pesado, cúmplice do silêncio. Passou a mão pela barriga ainda plana. Era medo dividido com desorientação.

Não era assim que ela imaginara contar. Não era assim que imaginara esperar. Não era assim que imaginara estar grávida, sozinha, àquela hora, sem saber se o pai do filho ainda cabia no verbo voltar.

Se ele não voltar…parou. Respirou fundo.  Se alguma coisa lhe acontecer…

Sentiu um aperto seco no peito. Não queria aquele futuro. Não sem ele. Não agora. A vida tinha antecipado capítulos demais.


Na rua, a mãe regressava. As pernas doíam, os pés arrastavam-se, e o cansaço tinha-se instalado em seu coração, mas não havia choro, só lucidez amarga.

Eram quase três da manhã. A casa apareceu ao fundo, com a luz da entrada acesa como um aviso. O pai estava à porta. Imóvel. Esperando por ela. Não parecia aliviado por vê-la voltar sozinha.

Quando finalmente ficaram próximos um do outro, não houve palavras, nem choros, apenas um olhar de desespero profundo, por fim, ele abraçou fortemente. Beijou sua testa e em seguida, dois sentaram-se na pequena escada de três degraus da entrada da casa. Mesmo sendo já de madrugada, mas os permaneceram ali, sentados e com a porta aberta atrás deles, e sem medo dos perigos noturnos.

O telemóvel do senhor Zé vibrava.

Atendeu.

— Alô?

A voz do outro lado não se apresentou.

Uma pausa curta, calculada.

— Nem tudo está perdido. — continuou. — Mas poderá estar.

O coração da mãe bateu errado.

— As coisas podem ficar piores — acrescentou a voz — se o que está guardadodentro da vossa casa não for devolvido.

Silêncio.

— Para qualquer dúvida… — concluiu — o Sérgio tem todas as respostas.

A chamada caiu.

Ele ficou parado por um segundo, como se o corpo precisasse de autorização para continuar. Guardou o telemóvel e seguiu. O Sérgio era o amigo do filho que háalgumas horas foi procurado sendo confundido como o filho e não estava em casa da mãe dele que era logo junto a casa deles. Então só poderia estar em casa do pai dele, que não era distante também.

Entraram  no carro ainda com o motor frio arrancaram e saíram disparados sem fechar a porta e sem despedir a namorada dentro de casa. Quase quatro da manhã. Nenhuma explicação. Nenhuma garantia.

A casa do Sérgio ficava perto demais para ser ignorada por tanto tempo. E assim que eles chegaram, o pai do Sérgio abriu a porta logo no primeiro toque da campainha e disse de imediato.
— Finalmente vocês chegaram, entrem logo! 

🌕 3° Lua — 07 de março de 2026

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