sábado, 7 de fevereiro de 2026

CRÔNICA - TANTO NA MÁFIA COMO NA IGREJA - Hadil Almeida

 



“Honra, orgulho, respeito e lealdade não têm preço, mas perdê-los pode custar a sua vida.”

Esta série de quatro crônicas narrativas não se propõe a estabelecer comparações pejorativas entre dois grandes grupos historicamente influentes. Trata-se, antes, de uma reflexão sobre as similaridades estruturais e morais que regem ambos e que estão diretamente ligadas ao seu funcionamento, à longevidade e ao código de conduta exigido dos homens e mulheres que os integram.

Ao longo destas crônicas, abordarei quatro virtudes centrais honra, orgulho, respeito e lealdade uma em cada parte, exemplificando como tanto a máfia quanto a igreja reconhecem tais virtudes como pilares necessários para que o “bem maior”, segundo as suas próprias doutrinas, seja alcançado.

Convido-te a ler com atenção crítica e a opinar com honestidade.

TANTO NA MÁFIA COMO NA IGREJA

PART. I — HONRA

Honra é o ponto de abordagem nesta primeira parte da crônica narrativa, antes de discorrermos sobre as outras três virtudes.

Honra.
O que te vem em mente quando ouves esta palavra?
O que ela significa para ti?
Em quem pensas quando a escutas?
E, sobretudo, pergunta a ti mesmo: consideras-te um homem ou uma mulher de honra? Por quê?

É insólito perceber que a máfia e a igreja, apesar de ofícios tão distintos, partilham similaridades profundas. São dois grupos dominantes das massas, carregam reputações capazes de colocar milhares de homens de joelhos e, por vezes, deitados porque há pessoas dispostas a morrer ou matar por essas causas quando nelas acreditam veementemente.

Na máfia, a promessa de um homem ou um aperto de mão vale mais do que um acordo por escrito.
Na igreja, um juramento vale mais do que uma assinatura.

Diferente da formalidade parlamentar ou judicial, onde tudo precisa ser documentado para ser provado ou cumprido, tanto na máfia quanto na igreja a palavra do “crente” basta. A partir daí, rege a confiança de que o dito será cumprido. Quando um homem dá a sua palavra, espera-se que ele a cumpra ou morra tentando. Talvez por isso, em certos aspectos, mafiosos sejam mais fiéis a esse princípio, contrariando até o ditado: “não existe honra entre ladrões.”

A honra presente nos homens desses grandes grupos faz com que seus súditos levem a cabo missões destemidas, por lugares e circunstâncias onde homens sem honra desistiriam pelo caminho. Estar disposto a morrer por uma causa faz com que os homens ao redor acreditem nela fielmente, ainda que não seja justa ou verdadeira.

Quando trazemos a honra para o contexto da sociedade em geral, os exemplos de sua ausência são abundantes:
homens fugindo da parentalidade; médicos quebrando o juramento de Hipócrates; políticos que jamais cumprem promessas de campanha; promessas de amor que se transformam em corações partidos;
e até a louça que recusaste lavar, mas repetiste ao comer sim, você mesmo.
Provavelmente, até os teus pais também carregam exemplos de falta de honra mas falaremos deles na próxima

Diante disso, é fácil perceber como o mundo seria mais recto se todos honrássemos a própria palavra.

Tanto os mafiosos quanto os homens tementes a um Ser Superior partilham uma crença inabalável de que estão certos e dispostos a cumprir ordens vindas dos seus superiores. Por isso, a máfia tornou-se uma grande corporação funcional, capaz de manipular sistemas sociais e políticos em seu benefício, pois os homens que a operam estão dispostos a honrar seus deveres, inclusive os mais obscuros. Pelo mesmo motivo, a igreja tornou-se uma grande corporação funcional, capaz de influenciar e descredibilizar sistemas sociais e políticos, agregando pessoas em torno de si, porque seus homens honram ordens e dogmas sem necessariamente questionar sua lógica.

Se um mafioso trai a esposa, é afastado da organização.
Se um crente trai a esposa, comete adultério pecado punível conforme a doutrina.

Se um mafioso não cuida da família, é visto como incapaz de cumprir suas funções.
Se um crente não cuida da família, descumpre o papel de provedor que lhe é atribuído.

Esses são apenas alguns paralelos. Fiz a equiparação focando nos homens porque, na máfia, mulheres não são aceitas, e, na igreja, ainda sofrem um patriarcado subtil para ocupar cargos de topo outra similaridade.

Dois vencedores, ainda que de ofícios distintos, sempre partilham algo em comum. O mesmo vale para os perdedores.

A máfia e a igreja estão espalhadas pelo mundo, têm milhares de seguidores, negociam, perdem, ganham e continuam crescendo. Por quê? Porque existem homens íntegros pela causa, dispostos a honrar compromissos, ou até morrer para que seus sucessores cumpram o plano.

A honra pode ser distorcida para o mal, mas continua sendo uma virtude fundamental para qualquer pessoa que deseje construir reputação, legado e participar conscientemente da engrenagem que sustenta as gerações futuras.

TANTO NA MÁFIA COMO NA IGREJA

PART. II — ORGULHO

“Honra, orgulho, respeito e lealdade não têm preço, mas perdê-los pode custar a sua vida.”

Orgulho é o ponto central desta segunda parte.

Aqui há uma ambiguidade essencial que precisa ser compreendida: ter orgulho e ser orgulhoso não são a mesma coisa.

Ser orgulhoso remete a um traço de carácter marcado pela vaidade excessiva, pela recusa da lógica alheia e pela convicção absoluta de que não se deve reverenciar sob qualquer circunstância.
Ter orgulho, por outro lado, é sentir alegria, satisfação e euforia pela concretização de algo ou por alguém.

Tanto a máfia quanto a igreja transitam entre essas duas posturas. Orgulham-se das suas glórias, tradições e feitos. E, ao mesmo tempo, são orgulhosas demais para admitir que podem estar erradas mesmo quando estão.

Ao longo da história, ambos os grupos adotaram posturas radicais na defesa de ideias, dogmas e práticas que jamais retrocederiam, justamente porque funcionaram. O orgulho nasce do resultado.

Esse orgulho vem de séculos de tradições, rituais, crenças e regras que se provaram eficazes para o progresso dessas organizações e se tornaram dogmas.

Algumas similaridades:
• A máfia não aceita membros homossexuais; tolerância zero. A igreja também condena relações homossexuais.
• A máfia acredita que apenas homens podem chefiar famílias. A igreja mantém visão semelhante sobre liderança feminina.

Mesmo que se argumente que tais posições estão erradas, é difícil confrontar o orgulho de sistemas que, sob seus próprios critérios, funcionam há décadas.

No âmbito social, o orgulho pode ser tanto um monte de merda que não desce nem puxando o autoclismo quanto a maior sensação de euforia pela realização de uma meta.

Ser orgulhoso:
• “Não vou pedir desculpas, ela também errou.” orgulho matando o amor.
• “Não tenho que sustentar meus pais.” orgulho matando a fraternidade.

Ter orgulho:
• “Tenho orgulho do que construímos.”
• “Tenho orgulho de ti, meu filho.”

O orgulho é uma faca de dois gumes. Pode destruir ou edificar. Afirmar domínio total sobre algo é fechar-se ao aprendizado. Baixa o orgulho não o confundas com ego e permanece aberto a aprender.

Podemos aprender com crianças, com quem tem menos estudo e até com os mortos. Reconhecer que tudo o que sabemos é pouco diante do que ainda podemos aprender é sabedoria. A máfia e a igreja compreenderam isso cedo; por isso continuam absorvendo conhecimento e práticas eficazes pelo mundo.

TANTO NA MÁFIA COMO NA IGREJA

PART. III — RESPEITO

“Honra, orgulho, respeito e lealdade não têm preço, mas perdê-los pode custar a sua vida.”

Respeito é o tema desta terceira parte.

Diferente da honra e do orgulho, o respeito é bilateral: aquilo que oferecemos aos outros e aquilo que recebemos deles. Harvey Specter disse: “O respeito é uma via de mão dupla.”

Uma pessoa respeitosa não escolhe quem respeitar: trata mendigos e reis com educação. Quando o respeito falta do outro lado, a resposta costuma espelhar o mesmo nível.

Entre o que nos ensinam sobre como tratar os outros e como realmente os tratamos está a medida do nosso respeito. Entre o que fazemos e o que deixamos de fazer está o quanto somos respeitados.

Da família às ruas, das escolas à máfia e à igreja, o respeito sustenta organizações eficientes. Respeitar a cadeia de comando é essencial. Quem governa apenas pelo medo não é respeitado, é temido e o medo faz as flores secarem.

Tanto a máfia quanto a igreja compreenderam cedo que, para agregar pessoas, é preciso respeitá-las e fazê-las sentir que ganharão mais respeito ao integrar o grupo.

“Eu não concordo com a sua opinião, mas respeito.”
Essa frase raramente é verdadeira, mas funciona. O simples acto de simular respeito faz o outro sentir-se compreendido, abrindo espaço para reciprocidade.

Todos desejam ser respeitados. Não é diferente com essas organizações, que investem pesado para alcançar metas e preservar reputação.

• “Respeitai os vossos pais e superiores.” Bíblia.
• “Guarde a arma e ajude a velhinha a atravessar a rua.”  ditado mafioso.

O respeito não é exigido; é merecido. É ensinado dos mais velhos aos mais novos. Um adulto precisa respeitar uma criança para ser respeitado por ela.

Quando o respeito não é concedido, ambos os grupos sabem impor. A história das religiões e da máfia está repleta de exemplos.

Educar uma criança corretamente evita punir um adulto.

TANTO NA MÁFIA COMO NA IGREJA

PART. IV — LEALDADE

“Honra, orgulho, respeito e lealdade não têm preço, mas perdê-los pode custar a sua vida.”

Lealdade encerra esta série.

Lealdade é escolha. Não é exigida; é oferecida. Não deve ser confundida com fidelidade. A pessoa leal protege, defende e permanece mesmo discordando porque o propósito é maior.

Na máfia e na igreja, homens e mulheres demonstram lealdade através de actos: silêncio, defesa pública, sacrifício. Sempre de forma recíproca.

A lealdade não deve ser mendigada. Permite que o outro revele se é leal. Se não for, afasta-te.

A história está repleta de exemplos de traição por conveniência: Pedro negando Cristo; Tommaso Buscetta quebrando o juramento de silêncio.

Existe satisfação maior do que viver e morrer leal a uma causa nobre ou a alguém que amamos?

Nada disso é possível sem lealdade.

Se te consideras leal, pouco importa o rótulo. O que importa é sê-lo.

Por: Hadil Almeida


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