Deus também fica em silêncio - 12 Luas Cheias
Nota de abertura
Deus também fica em silêncio - 12 Luas Cheias
É uma
única narrativa, contada em 12 partes,
ao longo de um ano.
Não porque falte o que dizer, mas porque certas verdades só se revelam quando
não são forçadas.
Como funciona
- 1 parte por mês
- Publicação: todo dia 7
- Durante 12 meses
- 2026
Leia no
seu ritmo. Tempo médio de leitura: 9 a
11 minutos,
Volte quando a lua voltar.
As Luas
🌕 1° Lua — 07 de janeiro de 2026 (publicado)
• 🌕 2° Lua — 07 de fevereiro de 2026• 🌕 3° Lua — 07 de março de 2026
• 🌕 4° Lua — 07 de abril de 2026
• 🌕 5° Lua — 07 de maio de 2026
• 🌕 6° Lua — 07 de junho de 2026
• 🌕 7° Lua — 07 de julho de 2026
• 🌕 8° Lua — 07 de agosto de 2026
• 🌕 9° Lua — 07 de setembro de 2026
• 🌕 10° Lua — 07 de outubro de 2026
• 🌕 11° Lua — 07 de novembro de 2026
• 🌕 12° Lua — 07 de dezembro de 2026
Deus também fica em silêncio
1° Lua
— Ele vem? — perguntou o pai, já
deixando transparecer o aborrecimento com o rumo que a situação tomava. O misto
de preocupação e nervos estava à flor da pele.
— Não sei. — a mãe
respondeu quase num sussurro, enquanto pousava os pratos na mesa.
— Nunca sabes! — o pai
replicou, batendo levemente na mesa. Uma taça deslizou e caiu sem partir.
A mãe olhou-o em
silêncio. Demorou alguns segundos antes de falar.
— Você é um perdedor,
você. — disse, e afastou-se logo depois de colocar o último talher sobre a
mesa.
Ele, ainda
insatisfeito, seguiu-a até à cozinha. Aproximou-se enquanto ela permanecia de
costas, organizando o que restava para servir o jantar.
— Você sempre foge
quando o assunto é o mau comportamento do teu filho querido. É você que
alimenta isso nele.
— O que você quer Zé?
Eu não quero discutir. Vamos jantar e acabou. — respondeu, já com a voz mais
alta.
— É isso que você
sempre faz. Guarda a sujeira debaixo do tapete.
— Que sujeira qual quê?
— O comportamento do
teu filho querido.
— Ele também é teu
filho. Então qualquer mau comportamento, a culpa também é tua.
— Minha culpa?
Ela virou-se de costas.
— Me deixa em paz.
Ele percebeu que já não
discutiam sobre o filho. Discutiam sobre tudo o que nunca souberam dizer quando
ainda havia tempo. E isso, de alguma forma, doía mais.
Ela tentou passar por
ele para voltar à sala. Ele estendeu o braço, bloqueando-lhe a passagem. Por um
segundo, nenhum dos dois se mexeu. No
movimento seguinte, a tigela cheia de funge escorregou e caiu no chão,
espalhando tudo.
— É isso que você
queria? — ele disse. — É isso que você queria?
— O que eu queria era
que nós fôssemos uma família de verdade. E não três pessoas a viver na mesma
casa.
— Mas a culpa é tua. Eu
fiz tudo. Eu dei tudo o que uma mãe podia dar a um filho. Tudo. — disse,
encarando-o. — Mas e você?
O pano amarrado à
cintura dela soltou-se. O vestido sujo de fuba ficou exposto.
— E você acha que sair
de madrugada e voltar ao anoitecer para pôr comida nesta casa, de janeiro a
dezembro, não é dar no duro? Achas mesmo? — ele respondeu, exaltado. — Eu podia
desperdiçar a minha vida na rua, mas sempre voltei para vocês. Sempre. E sempre
saí para trabalhar, até nos meus piores dias.
— E esperas o quê, Zé?
Aplausos? — ela apanhou o pano do chão e começou a bater palmas, carregando
toda a ironia que lhe restava. — Foste trabalhar e sustentaste a tua família.
Isso é o mínimo que se espera das responsabilidades de um homem. Queres um
prémio por isso?
Ele virou-se de costas
e passou as mãos pelo rosto, tentando conter o que já transbordava nos gestos.
— Um prémio? É isso?
Virou-se de repente e
gritou:
— Eu queria respeito.
Amor. — apontou em redor da cozinha. — Tudo o que fiz nesta casa foi por amor.
Não precisei que me pagassem por isso. Faria tudo outra vez.
Sentou-se no banquinho
mais próximo. A voz baixou, mas não perdeu peso.
— Mas não sei onde
errei como pai… Tudo o que tentei foi ser um pai como o que tive.
Fez uma pausa.
— Agora olha para nós.
Olha para mim, Teté… Vinte e seis anos depois, e ainda estamos aqui a discutir
sobre como eu devia ter sido um bom pai.
Ele manteve-se sentado,
o olhar perdido num ponto qualquer da cozinha.
— A culpa é minha. —
disse, quase para si. — Sempre foi.
Ela não respondeu de
imediato. Continuou a limpar o chão como se ainda houvesse algo para salvar do
funge espalhado.
— Fui eu que devia ter
visto antes. Fui eu que devia ter segurado aquilo quando começou a desandar. —
levantou os olhos. — Ele é meu filho. Se algo deu errado, começa em mim.
A mãe parou.
Endireitou-se devagar. Ficou de frente para ele.
— Não. — disse. — Não
começa só em ti.
Ele abriu a boca para
responder, mas ela continuou.
— Isso é mentira
confortável. A culpa toda num só corpo parece mais fácil de carregar. Mas não é
assim.
Ela respirou fundo.
— Como marido, tu foste
bom, o melhor. Sempre foste. — fez um gesto vago com a mão. — Nunca foi isso.
Mas como pai… errámos.
Os dois.
Ele franziu o rosto.
— Tu foste duro demais.
Eu fui branda demais. Nunca falámos a mesma língua com ele. — disse ela. — Cada
um puxou para um lado diferente, e chamámos isso de educação.
O silêncio voltou a
sentar-se entre eles.
— As expectativas nunca
bateram certo. — continuou. — Nem as nossas, nem as dele.
O que não dissemos quando devíamos dizer… virou hábito.
O que não fizemos quando ainda dava tempo… virou distância.
Ela baixou os olhos.
— Isso não é só culpa
tua. É nossa.
Ele levantou-se de
repente, a cadeira arrastando no chão.
— Mas eu sou o homem! —
gritou. — Era eu que devia resolver isso. Eu devia ter noção. Eu devia ter
segurado tudo antes de cair.
Passou as mãos pelo
rosto, outra vez.
— Um homem não devia
deixar o próprio filho perder-se assim.
Antes que ela
respondesse, um som cortou o ar.
Alguém batia a porta. A
mãe endireitou o corpo num sobressalto.
— Está aí. — disse num
fio de voz. — Ele chegou.
O pai não se moveu.
— Agora lhe diz. —
continuou ela, com os olhos fixos na porta. — Diz tudo o que disseste aqui.
Ele deu um passo,
depois parou.
Bateram a porta outra
vez.
Ela foi até à porta.
Quando abriu, não era
ele. Era a namorada dele.
Ela entrou apressada, os olhos varrendo a sala antes mesmo de dizer qualquer
coisa.
— Ele já chegou, mamã? — perguntou, ainda ofegante.
A mãe demorou um segundo a responder.
— Não… — disse. — Achámos que meu filho vinha contigo.
A namorada franziu o rosto, confusa.
— Comigo? Eu pensei que ele estivesse aqui. — olhou para o pai. — Ele disse
que vinha para casa.
O pai não respondeu de imediato. Limitou-se a abanar a cabeça, quase
imperceptível.
— Não veio. — disse por fim. — Desde ontem.
O silêncio caiu pesado, como se alguém tivesse fechado uma janela invisível.
— Então… — ela começou, mas não terminou a frase.
Deu um passo em frente e parou. Levou a mão à cabeça por um instante, depois
desceu até à barriga, num gesto quase involuntário. O corpo cedeu ligeiramente.
A mãe foi rápida.
— Senta. — disse, segurando-lhe o braço. — Senta, por favor.
Ajudou-a até à cadeira. A namorada deixou-se ficar, respirando fundo, a mão
ainda pousada sobre a barriga, agora sem tentar esconder.
A mãe olhou para aquilo e entendeu antes de perguntar.
— Há quanto tempo? — disse, num tom mais baixo do que vinha usando a noite
inteira.
Um silêncio se extendeu por alguns segundos até que a namorada finalmente
respondeu a dona Teté.
— Pouco. — respondeu ela. — Eu ainda nem…
Calou-se.
A mãe puxou outra cadeira e sentou-se à frente dela.
— Ele sabe? — perguntou.
A namorada abanou a cabeça.
— Não. Ia contar hoje.
Ninguém disse mais nada. Ficaram os três ali, de
pé e sentados ao mesmo tempo, cada um num ponto diferente da mesma preocupação.
O relógio da sala marcava o tempo com um som seco, regular, quase indecente.
Ele não estava ali. E ninguém sabia exatamente
onde estava. Tio Zé olhou para ela ali sentada, a mão sobre a barriga, e sentiu
algo que não soube nomear de imediato. Não era raiva. Não era culpa apenas. Era
a percepção tardia de que o futuro não espera que os homens estejam prontos. Pensou
no seu filho como pai pela primeira vez. Não como problema. Não como falha. Mas
como continuidade. E isso o assustou mais do que tudo o que tinham discutido
naquela noite.
Ser pai, afinal, não termina quando o filho
cresce. Apenas muda de forma.
O erro não se apaga. Ele atravessa gerações.
Perguntou-se se o filho teria medo como ele
tivera.
Se estaria agora algures a tentar ser homem sem
saber exatamente como.
Como ele próprio fizera, anos antes. Repetindo gestos que achava certos apenas
porque não conhecia outros.
O futuro, percebeu ali, não estava na barriga daquela
rapariga. Estava naquilo que ninguém lhes ensinara a dizer a tempo. E o medo
não era perdê-lo. Era vê-lo repetir tudo.
A mãe estendeu a mão e ajeitou o pano sobre a mesa, como se ainda houvesse
jantar a servir.
— Ele deve aparecer. — disse, sem convicção. — Sempre aparece quando a
comida já esfriou. — disse o tio Zé.
Ninguém respondeu. Ele olhou para o relógio e percebeu que aquela noite já
durava mais do que devia. Pensou que tudo aquilo estava a acontecer rápido
demais. O filho saíra de casa no dia anterior, e já parecia distante como
alguém que partira há anos.
Entendeu ali que o tempo não avisa quando vai quebrar uma família. Apenas
passa. E quando se percebe, já levou alguém junto. A mãe continuava a dobrar e
desdobr a tolha de mesa.
A batida na porta não foi forte. Despertou-lhes logo. Três toques curtos. O
pai levantou-se primeiro. Não por pressa, mas por instinto. Antes que chegasse
à porta, suspirou.
Era um homem que nenhum deles conhecia bem. Rosto comum. Roupa comum.
— Boa noite. — disse. — Desculpem incomodar a esta hora.
O pai assentiu com a cabeça.
— Estamos à procura de um rapaz. — continuou o homem, olhando rapidamente
para os três, como quem confirma se está no sítio certo. — Disseram-nos que ele
mora aqui.
A mãe sentiu o corpo enrijecer.
— O nosso filho? — perguntou. — Ele não está em casa desde ontem.
O homem confirmou com um leve movimento de cabeça.
— Ele está bem? Fez alguma coisa?
— Sim, senhor!
— Sim o quê, caraças!
Houve uma pausa curta demais para ser confortável.
O homem ia responder quando uma voz surgiu do lado de fora.
— Não é aqui. — disse alguém. — É na outra casa.
Todos se viraram ao mesmo tempo.
Era um segundo homem, mais novo, apontando para a casa ao lado.
— Já confirmámos. — continuou. — A ocorrência é com o rapaz dali.
O pai sentiu o ar voltar aos pulmões num impulso brusco.
— Então… — disse devagar. — Então não é o meu filho.
O primeiro homem confirmou.
— Não. — disse. — Estamos à procura do Sérgio. — disse o nome, e o pai
reconheceu-o de imediato. O amigo do filho. O vizinho. Desde criança.
O alívio veio rápido demais para ser limpo. Veio sujo. Misturado com outra
coisa
— Não é ele que estamos a procurar. — acrescentou. — Mas estavam juntos.
O pai sentiu o chão perder alguma firmeza.
— Juntos onde? — perguntou.
— Ontem à noite. — respondeu o homem. — Depois disso, ninguém mais os viu.
O silêncio voltou a ocupar a sala.
— Se tiverem qualquer informação… — começou o homem, mas não terminou a
frase.
Não precisava.
— Avisem-nos. — concluiu, por fim.
Ele deu um passo atrás, esperando alguma reação que não veio.
— Boa noite. — disse outra vez.
A porta permaneceu aberta, nenhum dos três se mexeu. A casa parecia maior. E
perigosamente vazia. O pai fechou os olhos por um instante.
A mãe manteve-se de pé. Não sentou. Não caiu. Apenas respirou fundo, como
quem se recusa a ceder naquele momento.
Pensou no filho pequeno, a brincar naquela mesma rua. Pensou em quantas
vezes o chamara para dentro, e quantas vezes deixara passar. Pensou em como
nunca se sabe exatamente o momento em que a vigilância vira confiança ou
abandono.
O perigo não era ter feito algo errado. Era não saber onde ele estava agora.
A namorada mexeu-se na cadeira e comentou.
— Depois de ir ter comigo, eles estavam juntos ontem. — disse, num fio de
voz. — Mas depois se separaram. Ele disse que vinha para casa.
— Disse a que horas? — perguntou a mãe, aproximando-se.
— Não. — respondeu ela. — Só disse que vinha.
— Então ninguém sabe onde está o meu filho. — disse o pai, mais como
constatação do que pergunta.
Ficaram os três ali, ligados pela mesma ausência,
tentando montar uma história com peças que não encaixavam. O filho não estava
em casa. Não estava a ser procurado.
Mas também não estava seguro. E isso era pior do que qualquer acusação.
O pai foi até à porta e ficou ali, olhando para a
rua vazia. Não era o filho que procuravam. Inspirou fundo, como quem tenta
organizar o que ainda não aconteceu. Percebeu que, pela primeira vez, não tinha
plano algum. Nem como homem. Nem como pai. E o medo, ali, já não era perdê-lo. Era
encontrá-lo tarde demais.
A mãe levantou-se em silêncio. Pegou na bolsa,
conferiu o telemóvel e calçou os sapatos.
— Onde vais? — perguntou o pai.
Ela não respondeu de imediato.
— Nós ficamos à espera quando já não sabe o que fazer. — disse. — Eu ainda
sei andar, então vou fazer alguma coisa.
Saiu de casa em passo
lento e firme.
A namorada permaneceu
sentada, respirando com dificuldade. S
O pai ficou onde
estava, entre a porta, divido entre o luar e a lampada acesa na sala sem saber ainda se iria atrás do filho ou atrás do
tempo que já não voltava.
- Continua...
🌕 2° Lua — 07 de fevereiro de 2026


